Quanto devia ganhar um médico?

Hoje recebi um texto escrito em 2007 por um médico chamado Alexandre Hamam. Nele ele expôs, em excelente prosa, a angústia de comparar a realidade de sua profissão com a de um cabeleireiro (ou técnico de antenas). Deu-se conta que foi armada uma arapuca que coloca muitos médicos numa situação de ganhar menos que esses outros profissionais liberais. “Eu pagara R$ 44,00 ao cabeleireiro e, no mesmo dia, tivera recusado pela paciente uma cobrança de R$ 34,00 referentes a uma consulta médica para avaliar alguns exames que me orientariam na conduta frente ao diagnóstico de câncer da paciente e sua possibilidade de cura” escreveu.

A situação no artigo parece com a sensação quando ligo a TV e vejo alguém como o Latino cantando “Festa no Apê”. Sei que ele deve ganhar por um show de uma hora e meia múltiplas vezes mais do que eu ganho por mês. Quantos anos ele estudou para conseguir cantar “vai rolar bunda-lê-lê”?

“Luiz, respeita Januário!” — já cantava o pai de Luiz Gonzaga. Quais os méritos de Ringo Starr sobre os de Pete Best? Como um menino brasileiro pobre foi adotado por uma família americana para virar este médico e o vizinho dele foi ser gari? Porquê que a vida é assim?

Festa no Apê versus Exame com Aparelhos.

Pára o mundo que eu quero descer!

Pensando bem…
Entendo que o mundo é como é. Daí melhor tentar investigar porque o mundo é assim do que ficar desenhando no ar como o mundo devia ser. A palavra “Utopia” vem do grego “nenhum lugar”. Entenda o mundo e ajuste o seu lugar nele. Na praia não tente parar a arrebentação, mas salte as ondas, mude sua cadeira de lugar ou pegue uma prancha de surfe! (talvez literalmente, pergunte ao Dr. Morongo).

O próprio texto do Dr. Hamam dá a primeira dica para entender como as coisas são: “Vejamos: ambos temos clientes. Os dele são mais fiéis do que os meus, pois os meus vieram até mim por intermédio do livrinho do convênio. Os dele são 100% particulares.” Ora, ora, nisso aí está a diferença (abismal) entre o commodity e o diferenciado. Entre o quilo de carne e o jantar no Fasano, entre a tubaína e a coca-cola.

A esquerda um pedaço de carne. A direita sala do restaurante Fasano.

Suspeito que o mesmo corporativismo que tanto regulou a profissão médica, e criou barreiras de entrada, acabou por pasteurizar o médico em padrões de serviço muito similares: seis de um ou meia dúzia de outro, o produto da linha de produção educacional de medicina é de forma geral o mesmo… tirando um ou outro erro que será processado. Isso e mais o fato essencial de que serviços médicos são chamados de necessidades. Por isso costumam estar no alvo de pressão pela universalização. Por isso não recebem tanta simpatia quando querem ser caros. Cigarro pode ser caro, pão não. Plástica pode ser cara, tratamento de câncer não. Fecho parênteses.

A segunda dica para entender as coisas é esta frase do instalador de antenas: “-Então o Sr precisa deixar de ser medico.” Nisso há uma grande verdade. Nisso, Adam Smith diria, está a mão invisível — médicos demais, encanadores de menos, os preços se ajustam para dizer “você devia deixar de ser médico e ser encanador”. A voz do povo, a voz do mercado, é a voz de Deus. Ou não é?

Vale dizer que nos países mais desenvolvidos, como na Suécia ou Noruega, freqüentemente ganha mais quem tem trabalhos braçais do que quem é, por exemplo, médico, engenheiro ou dentista. E o que limita o percentual da população que faz curso superior (no sistema gratuito escandinavo) é justamente achar que o tempo investido não vale a pena. Ou seja, poderiam fazer faculdade e não querem. Muitas vezes não vale a pena mesmo, e cada um é livre para escolher o que quer fazer. No Brasil dá para dizer para um menino que ele pode escolher entre ser médico ou bombeiro? Dizer que são duas opções igualmente válidas para ter uma vida honesta razoável? Dá para dizer que há liberdade entre ser funcionário público e ser marceneiro? Só no futuro que o artigo prenuncia…

Ao fim resta uma última questão. O médico acha que ganha pouco, absolutamente, ou acha que os outros dois profissionais liberais ganham muito, relativamente? Entendi que é a segunda opção, e nisso há um tanto de elitismo.


O artigo do Dr. Alexandre Hamam está disponível neste link.

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8 respostas em “Quanto devia ganhar um médico?

  1. Então,
    estou eu em Carangola esperando, esperando, esperando o trem…

    (Tudo bem)

    Sugiro o livro “Muito Mais que um Carpinteiro” e depois outro:
    “A Morte da Razão”

    (Tudo bem?)

    – não vai levar muito tempo.-

    Fiquem com Deus!!!

  2. Besteira pessoas com comida na mesa reclamarem do dinheiro recebido, médicos no interior do Brasil ganham 10000 brincando, mesmo com pouca experiência, sobre uma formação não-favorável.

    • Fato, em Maringá-PR a prefeitura estava com vagas abertas para médico por mais de ano com salários próximos a 10k e não conseguiam preencher por falta de interessados, imagine.

      • Esse tempo todo na Espanha e não conheço nenhum marceneiro que ganhe mais que medico ou enfermeiro. O diferente é que as pessoas conseguem levar uma vida digna. Não moram trancadas por medo de serem queimadas vivas, nem se paga os preços altos no supermercado, mesmo tendo bastante imposto. Muitos poucos terao a mesma sorte de morongo, por mais inteligentes que sejam, nem todos conseguem virar empresarios, falta grana, tempo e espaço. Ou alguns querem continuar em sua profissão e tentar fazer o melhor dela.

  3. Ótimo texto! Leio diversos blogs na internet, a maioria fala as mesmas bobagens de sempre. Finalmente pude ler um texto que toca em pontos cruciais que aqui no Brasil são tabu, como o elitismo de algumas profissões e relação entre livre-mercado e ensino superior.

    Abraço

    • Vc está absolutamente correta Gisele. Pois quem instrui o médico até ele fazer residência é o coitado do professor.

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