Técnicas do intelectual revolucionário

Três técnicas podem criar um inovador revolucionário no campo das idéias, mesmo que a partir do equivalente intelectual de um chiuaua correndo atrás do rabo. Escreva e se convença da genialidade que brota. Quem começa se enganando pode depois enganar os outros com sinceridade. Num instante todos ressoarão grandes pensamentos, de inovadores e revolucionários chiuauas. Farão perfeito o dia de um manipulador por trás da cortina, e colocarão o bravo pensador no mapa das idéias: tudo com três técnicas!

Primeira técnica: Hoje começa uma nova era
Olhe a sua volta. Estude o passado. O mundo passou por eras. Grandes estágios foram percorridos. Então estamos no meio de um? Não, negativo. Isso seria muito maçante. Na verdade estamos em uma transição. Neste exato momento estamos saltando sobre o abismo entre duas placas tectônicas. Precisamente hoje as regras dos próximos mil anos estão sendo escritas. Os tolos não percebem, mas assim é. Chega a era da informação, a nova economia, a economia do conhecimento. Raia o multipolarismo, a globalização, o fim da história. Se você estiver sem imaginação pegue o nome da era atual e coloque o prefixo “pós”: entra a fase pós-moderna, pós-industrial, pós-capitalista. Estamos chegando no novo estágio. O nome que tu escolhes será prova disso para sempre.

Há variações nesta técnica. Numa delas a nova era está passando despercebida na frente de todo mundo, e tu, escritor arguto, é que apontarás o dedo de acusação: “Nova Era!”. É como se tivesse um peludo mamute rebolando na beira do campo em uma final de campeonato. Está todo mundo ali, de frente para a criatura, mas cegos pelo jogo não percebem. Até você apontar. Uns vão pôr os olhos de volta na partida, outros vão tirar fotos do mastodonte, outros ainda vão sair correndo apavorados do estádio. E tudo isso graças a teus olhos de águia.

Outra alternativa é trinta vezes repetir que a era atual está no fim, se esgotou. Tu pressentes a próxima era chegando — não sabes exatamente quando virá, mas ela é iminente. Não sabes como será estruturada, mas sabes quais serão suas características. Inverta trinta vezes as constatações de que a era atual se esgotou. Assim descreverás a nova era, de gente fina, elegante e sincera.

Como ainda outra variação da mesma técnica, podes apontar que a nova era está ali como uma criança entalada no parto, prestes a nascer mas dependendo de ativismo imediato. “Vem, vamos embora, que esperar não é saber”. O mundo vai ser muito melhor se houver engajamento. Vem vamos dar as mãos e azeitar o inevitável, abrir caminho para a locomotiva, chegar primeiro ao show. A nova era está chegando e quem sabe fará a hora (não esperará acontecer).

Segunda técnica: As pessoas têm direitos ignorados
Ultraje! O sagrado fogo do ultraje queimará na face de todos quando apontares o absurdo: crianças sem tratamento médico, adultos sem saber ler, casas sem esgoto. Ultraje! Todas as crianças têm direito à saúde. Todos os adultos têm direito à educação. Todas as casas têm direito de acesso ao sistema de esgotos. Mas esses bordões, bah, já estão gastos. Ninguém se sente inovador revolucionário repetindo o mesmo de sempre. Então continue, descubra direitos ainda não definidos nem expressos, e coloque por eles teu nome no panteão dos grandes pensadores. Seguem algumas idéias (nem todas originais):

  • Todos têm direito a um emprego. Todos têm direito ao lazer. Todos têm direito ao ócio.
  • Todos têm direito à terra. Todos têm direito a estradas para a terra. Todos têm direito a sementes e adubo para trabalhar a terra.
  • Todos têm o direito de se expressar. Todos têm o direito de se manifestar. Todos têm o direito de grafitar.
  • Todos têm o direito de se vestir como quiserem. Todos têm direito à sua própria sexualidade. Todos têm direito ao orgasmo.
  • Todos têm o direito à segurança. Todos têm o direito de não apanhar de seguranças.
  • Todos têm o direito de cultuar qualquer religião. Todos têm o direito de fundar uma religião.
  • Todos têm o direito de escrever um blog. Todos têm o direito de tuitar.

Identificado o direito, escreva um longo texto mostrando como esse direito se manifestou desde a pré-história até hoje. Indique como a sociedade moderna solapou o tal direito, que precisa ser resgatado. Ou, se não, mostre como o surgimento de tal direito na história é um sinal de evolução, altamente correlacionado com o progresso da civilização. E que o novo direito, como qualquer coisinha nova e indefesa, precisa ser nutrido e protegido para que fique forte como um pilar do novo mundo. Acima de tudo, batize o direito, e faça dele teu ingresso pessoal na história.

Terceira técnica: Da página em branco nasce o ideal
O mundo está torto além do conserto. As coisas foram longe demais. O paciente está moribundo. Reformar seria o equivalente a demolir e reconstruir. Vamos com este lema: ignorar tudo o que existe, começar de novo. É mais simples, mais limpo, e vai funcionar quando terminar. Certo? Certo… porque tem que dar certo!

Ignore o que se sabe, ignore a teoria de outros países (interesseiras e conspiradoras), e ignore também a teoria das gerações passadas deste país (reacionárias e fisiológicas). Desconfie de tudo. Queime os livros. Comece tua nova escola de pensamento. Ajudará juntar amigos e fazer congressos. Todos serão intelectuais do movimento e cada um deles será um fundador da inteligência nacional, um inaugurador do bom senso, um libertador dos grilhões do conhecimento importado. Sim, inventaremos o raciocínio tropical — a solução original brasileira.

Mostre que as coisas chegaram até aqui por um acúmulo de retalhos e panos podres. Comece de novo. Arranque todas as raízes do chão: a planta está doente e enfraquecida. Está tudo ao contrário da semente que você irá plantar. É preciso ter paciência, mas o fruto que virá será o mais doce. Mostre teu plano ao mundo. Convença, empolgue, conduza.

Comece de um continente vazio de instituições, mas cheio de pessoas bem intencionadas — distribua atribuições. A do arquiteto será a principal, afinal ele mostrará como o novo sistema funcionará. Não precisa se identificar como arquiteto. Não concentre em ti a atenção. Concentre-a nas atribuições de todas as outras pessoas. Elas serão performadas com prazer, orgulho e dedicação individual. Senão não vai funcionar, já sabes. Podem haver sabotadoras da grande causa, e precisaremos saber lidar com elas. Falhas individuais podem acabar com a implementação do plano mais brilhante. Mas não acabarão com uma contribuição revolucionária à história intelectual. Seja diferente e ousado e serás lembrado — sucesso ou fracasso.

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3 respostas em “Técnicas do intelectual revolucionário

  1. Excelente, especialmente os dois primeiros itens (o terceiro já é manjado, mas ainda funciona). Curioso como as pessoas usam a expressão “direito à educação” hoje como sinônimo de educação grátis. Esquecem que houve épocas em que pessoas realmente foram proibidas de se educar (vide Coréia durante a ocupação japonesa). Subverte até a idéia do que é o direito.

  2. Meus parabéns Ricardo!
    O texto explica claramente como agem os charlatões teóricos! Brilhante!
    Por ventura tens algum livro publicado?
    Manifesto aqui a aclamação deste leitor.

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