Apague a auto-piedade

Nunca tenha piedade de si mesmo. Nunca faça isso. Olhe para o lado. Abra os olhos. Veja. Tem alguém enfrentando desafio pior que o teu. Tem alguém que acorda, levanta e luta, mesmo vendo pela frente um dia que você nunca teve (nem em pesadelos). Abra os olhos. Você enfrenta a dor, outros enfrentam a morte. Você sente falta de conforto, outros sentem falta de comida. Você queria ter sucesso, outros queriam uma noite de sono (sem temer pela vida). Veja. Você guarda mágoa de alguém, outros guardam no peito um vazio: perderam um pai, perderam um filho. Entenda. A dor humana pode ser gigantesca, mas grande é a promessa que todo dia traz. Não fuja do dia, não fuja do sol, não se esconda da vida. Quanto maior a dificuldade agora, maior a paz depois quando ela tiver passado (e vai).

Seja uma mulher forte, seja um homem forte. Cresça como se fazia nos bons e velhos tempos: Assuma sua vida! É a única vida que é sua, e é a única coisa que podes assumir. Quem abraça a auto-piedade larga da vida. Esse travesseirinho molhado de lágrimas não vale (nem de longe) uma vida. Viva a sua vida, viva agora, porque ninguém mais se importa com ela. Ninguém realmente quer saber se você está chorando. Ninguém realmente tem a chave para teu estado mental. Ninguém está pensando se vai aguentar mais um dia você de cabeça baixa. Mas você devia.

A estrada pode parecer longa demais. Esqueça a estrada! Dê um passo agora. Dê um passo já. Não pense no passo seguinte se não deu o primeiro passo. Não existe estrada nenhuma. Existe só o passo. E talvez um outro. Mas pense nisso depois. E, outra coisa, não tente fazer nada. Não tente! Faça. Ou não faça. Mas não tente! Só faça. Ou não.

Preocupações? Não se preocupe, se ocupe! Sucesso é inspiração, mas é muito mais transpiração. Você está parado. Você espera a inspiração para começar a se mover. Espera aquela idéia de gênio, aquela visão clara, o corredor desimpedido até o gol. Não faça! Parta para a ação, pois a ação quase sempre traz inspiração — mas a inspiração com muita frequencia não leva à ação. Assim mexa-se já! Exponha-se! Tome vários ângulos! Ouça as crianças. Sinta os cheiros do mato. Molhe os pés na mangueira.

Acima de tudo, fuja da tua casca. Você não é o centro do universo. O mundo não foi feito para te torturar (nem para te alegrar). As coisas não conspiram contra você — e nem a seu favor. O vento sopra, o galo canta, o caminhão baixa a marcha, sobe a ladeira, o diesel queimado fede no ar, e o vento sopra. Nada tem a ver com nada. Cada coisa faz parte do todo. E você no meio. Não no centro, mas no meio. Pronto para levantar a cabeça. Não tente. Levante. Ou não levante. Mas não tente.

Na igreja, de joelhos, os fieis pedem: “Senhor, tende piedade de nós!”. E há duas formas de entender isso: a forma certa, e a errada. “Sou digno de pena, um coitado” — é a interpretação errada –“tenham todos pena de mim, pois até a Deus estou pedindo”. Mas pode-se ouvir também o certo na mesma frase: “abri os olhos e vi como sou minúsculo, ínfimo, diante de tudo — tenho vergonha e peço perdão por ter me esquecido disso algumas vezes”. Deixe-se voar como um grão de areia. Viaje pelo mundo, sem nunca esquecer de que és um pequeno, microscópico, grão de areia. Ninguém tem pena de um grão de areia, nem de uma folha que cai de uma árvore, nem de uma borboleta que nasce e morre em um mesmo dia: tão maravilhoso, tão longo dia.

Dê para alguém o seu dia. Faça isso. O seu dia é a coisa mais preciosa que você tem, e se você não o guardar para si, mas der para alguém, estará fazendo a maior bondade de que serás jamais capaz. Reflita. Não simplesmente “venda” o seu dia. Não simplesmente “aproveite” o seu dia. Não simplesmente faça aquela história de “uma mão lava a outra”. Nada disso. Realmente dê o seu dia: é o que você tem para dar. Dinheiro, sorrisos, desdém, tudo é trocado sem valor. Mas dê o seu dia para alguém que precisa, para alguém que você sabe que não poderá retribuir. Surpreenda uma pessoa, faça algo que será lembrado. Os ecos do seu dia podem soar por muitos dias, por meses, por anos. Eles podem soar por séculos, e dar alegrias e realização inimagináveis, se você não os queimar na fogueira egocêntrica da auto-piedade.


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11 respostas em “Apague a auto-piedade

  1. Gostei muito do seu texto. É assim que estou me sentindo.Tenho 45 anos e meu amor acabou de desencarnar.Tenho refletido sobre o meu sentimento uma mistura de tristeza com melancolia e cheguei a conclusão que o nome é auto-piedade, mas não quero isso, quero transforma-lo em auto-amor. O que me sugere como leitura? Como exercicio?

    Um abraço

    Eliane

  2. Eliane, Fico feliz do texto ter algum significado para você. Ele de certa forma foi escrito para mim mesmo (para um dia nublado). Para você, e também para mim quando esse dia vier, sugiro três vertentes:

    1) A filosófica, que provavelmente começa com a seguinte compreensão: “A origem de toda a dor e o sofrimento é o egoismo.” Escapar significa se retirar do centro de sua própria vida, se doando ou se deixando fluir.
    2) A comportamental, que para mim seria sumarizada no seguinte: “Tome sol!” (é uma pena que estamos no inverno, mas invernos não duram).
    3) A intelectual, ou seja, ler e entender história, filosofia, religião.

    Você sabia que houve um grande choque de visões de mundo quando o mundo helênico (Grego) se encontrou com o mundo hebreu (Judaico)? O primeiro acreditava que a essência da vida era buscar, encontrar ou criar, o perfeito, o belo. O segundo acreditava que a essência da vida é passar pelos testes que são postos por Deus, e se provar para ele. As religiões da Índia e da China tinham visões ainda diferentes dessas duas. Existem muitas lentes pelas quais ver o mundo. E com algumas lentes pode-se entender a vida de forma mais fácil, as coisas podem fazer mais sentido. É fascinante saber que as vezes entender o quadro é virar o quadro de lado, ou vê-lo em outra luz.

    Gostaria de ter um livro só para te indicar — mas na verdade são muitos.

  3. ricardo,
    grato pelo texto. achei você por um post de um amigo e ja acrescentei seu site nos meus favoritos.
    o texto desse post me fez voltar a ver coisas que eu ja tinha esquecido e que nesse momento sao muito acolhedoras.
    abraço.

  4. Boa Noite! Estava morrendo de medo quando chegasse o último dia do ano. O meu aniversário pra ajudar é na véspera de Natal. Vivo numa gangorra entre recaídas em bebidas e cocaína. Já tentei de tudo. Estou com 45 anos e acho que de uma certa maneira isso tudo afetou a minha mente. Estava procurando algo para sair dessa auto-piedade que a depressão dá, quando trambei com seu texto (muuuuito legal!) que me ajudou e está ajudando bastante a virar esse dia. Muito obrigado!!! Parabéns e Feliz Ano Novo!!!

    • Kleber, obrigado pelo seu depoimento. Sua coragem ajudará outras pessoas que porventura visitarem esta página. Eu não sei o que é passar por dificuldades como a sua, mas creio que toda luta, enquanto vivemos, nos faz ficar mais fortes. As vezes nos tornamos fortes em sentidos que nem mesmo apreciamos. Viver pode ser meio bom ou meio ruim, mas é nosso maior presente. Tem uma frase que eu gosto muito, e tento nunca esquecer: “Todo dia anoitece, e no outro dia sempre amanhece”. Feliz Ano Novo!

  5. Um texto maravilhoso e abençoado, daqueles que se encontra na hora certa, quando se está sem esperança, sem ânimo para a vida.

    Muito obrigado, meu amigo!

  6. Você é o autor original deste texto? Já o vi em vário blogs, sempre o procuro quando estou ‘fora da realidade’ e é uma joia para mim. Às vezes cito pedaços no facebook e gostaria de saber que é o autor. Abraço!

  7. Este texto realmente me tocou profundamente e deu o click que eu precisava para despertar de uma fase que sentia não ter mais fim
    Estou muito agradecida e cheia de vida novamente
    Muito obrigada.

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