História da Internet no Brasil, por uma testemunha ocular

Estamos aqui, em 29 de Dezembro de 2008, fim de ano, época de fazer balanços e retrospectivas. O jornal “O Estado de São Paulo” coloca na primeira página uma chamada para um caderno especial: “Link: O nascimento do conteúdo grátis”. Esse seria o resumo do ano de 2008 para a internet, do ponto de vista do jornal. Mais uma vez me lembro da tremenda dificuldade que tem o jornalismo em colocar as notícias de ciência e tecnologia em sua perspectiva correta.

Tantas vezes jornalistas anunciam avanços muito específicos em pesquisa pura como se fosse uma aplicação futurística prestes a chegar ao mercado: “Então, senhor cientista, quer dizer que com sua descoberta de nano-pontes-de-hidrogênio poderemos criar pequenos submarinos-robô para realizar cirurgias de dentro do sistema circulatório, salvando a vida de pacientes infartados?”. Essa distorção de reportagem diminui tanto o mérito da pesquisa pura (vai ser bom, mas por enquanto não é nada) quanto do desenvolvimento da aplicação (entregaram com atraso o que se esperava que fosse feito desde 1900 e antigamente quando descobriram xyz). A outra distorção típica é pós-datar o que já era usual — como é o caso da edição de hoje do jornal.

Anos atrás Carlos Imperial registrou “Atirei o pau no gato”, entre outras canções populares, como se fossem composições suas. Hoje o jornal proclama “Conteúdo grátis” como sendo uma astuta observação de fenômenos pertinentes ao ano de 2008. Dizem que a mãe do Carlos Imperial (já falecido) disse a ele: mas que vergonha, meu filho, eu fazia você ninar com essas cantigas! E podemos dizer, que vergonha, jornal de 29 de dezembro de 2008, o conteúdo grátis (legal e ilegal) viceja na internet desde… desde que ela foi criada!

Dito isso, aproveito a provocação (parece até flamebait) dessa fonte de conteúdo pago para dar a vocês um pouco de conteúdo grátis na forma de minhas lembranças do começo da internet no Brasil.

Um passeio descendo a Ladeira das Lembranças
Entrei no curso de Engenharia Elétrica da Universidade de Campinas em 1989. Era (acho que ainda é) o melhor curso de engenharia elétrica do País, com mais alunos de pós-graduação do que de graduação, e na época uma disputa de 45 candidatos por vaga. Lá os professores se ocupavam com robótica, computação gráfica, comunicação ótica, microscópios eletrônicos, design de VHSIC e outros temas sexys para um geek. Mas no ano de 1990 não havia internet lá. Os grandes computadores (já arcaicos), como o PDP 11, tinham algum sistema de interconectividade e email (foram neles que experimentamos uma MUD — Multi-User Dungeon pela primeira vez). Mas os PCs nos laboratórios não estavam conectados em nenhuma rede global. Foi naquela época que chegou, com fanfarra, a Bitnet: deu no Jornal Nacional naquela semana.

Sparctation da SUN, como usada na Unicamp.

Sparctation da SUN, como usada na Unicamp.

A Unicamp foi uma das primeiras universidades do país a se conectar a Bitnet (a comissão de frente da internet). Pouco tempo depois a universidade recebeu (também com fanfarra) uma grande quantidade de máquinas, novíssimas, da SUN. Eram estações de trabalho Sparcstation com monitores gigantes, mouses óticos (com um mouse-pad especial, espelhado e quadriculado), processadores RISC e sistema operacional Solaris — as três coisas sem precedentes por ali. Mas, o mais novo ainda: estavam conectadas à internet.

Os alunos não tinham email. Mas eu consegui (não me lembro mais como) um login para acessar a rede, via o laboratório do DCA (Departamento de Computação e Automação) da Elétrica. Ali não tinha browser, não tinha web, não tinha interface com mouse. Era tudo via interface de texto — e a brincadeira era explorar os gigantescos depósitos de programas e códigos-fonte via FTP. Uma fortuna de conteúdo, muito mais do que eu poderia absorver — ali, gratuito para baixar. Quando estive na Alemanha (intercâmbio universitário), no meio do ano de 1993, na universidade de lá o cenário era parecido. Os PCs eram sem browsers, embora tivesse uma interface clicável de texto, que incluia email, e fossem conectados em rede. As estações de trabalho não eram SUN, eram as super-sofisticadas Indigo da Silicon Graphics. Mas o cenário ainda era todo pré-Web.

Foi no segundo semestre de 1994, no LCAE (Laboratório de Computação Aplicada à Engenharia) do professor José Raimundo de Oliveira e do MiguelFA (nerd que praticamente morava lá), em que vi um navegador rodando pela primeira vez, acessando o parco conteúdo que já existia na minúscula World Wide Web de então: o histórico Mosaic.

Mosaic, Netscape Navigator, e Mozilla Firefox: Avô, Pai e Filho
Quando comecei a trabalhar em consultoria, em 1995, recebi um laptop Macintosh — na época, algo raríssimo no Brasil. Tinha tela preta e branca, e uma espécie de bola de mouse para cima (uma “trackball”) debaixo do teclado. Aquele micro vinha com Word, Excel, Corel Draw. Mas não vinha com nenhum programa de acesso à web, apesar da rede do escritório da consultoria oferecer isso. Instalei via FTP um browser chamado Netscape, e comecei a acessar a web por lá.

O Mosaic tinha sido programado por um jovem estudante da Universidade de Illinos em Urbana/Champaign, nos Estados Unidos. Da mesma forma que anos depois o Napster, foi um esforço individual que teve uma propagação e uma popularidade enorme,  quase instantânea. Pois no começo a Web era um protocolo sem nenhuma implementação padrão, sem nenhum navegador fechado — e o Mosaic assumiu esse posto. O nome desse programador era Marc Andreessen, e ele se juntou a um capitalista de novos empreendimentos chamado Jim Clark (fundador da Silicon Graphics) para criar uma nova empresa chamada Nestcape. No fm de 1994 o Netscape suplantou o Mosaic se tornando o novo padrão da para surfar a (ainda incipiente) web. Obviamente, tendo compartilhado o mesmo programador, o Netscape era uma continuação do Mosaic. Por isso é justo dizer que o Mosaic era o pai do Netscape.

Fiquei muito impressionado com aquilo tudo. Vi os primeiros sites a oferecer produtos a venda. Minha primeira compra pela internet foi feita em 1995 ou 1996. Foi no próprio site da Netscape: comprei uma camiseta da Netscape, com cartão de crédito, para entregarem no escritório de Nova Iorque da consultoria em que eu trabalhava. Depois chegou até mim por malote. Tenho ela até hoje: tem o logo da Netscape na frente, pequeno, e atrás, cobrindo toda as costas, um desenho de uma espécie de lagarto-mascote da empresa, o “Mozilla”, em pose de anatomia de Leonardo Da’Vinci. Pouco tempo depois comprei livros da Amazon, e um chaveiro da Anistia Internacional — admirável mundo novo, era aquele.

Foto de minha velha camiseta, o Mozilla da Netscape de 1995/96.

Foto de minha velha camiseta, o Mozilla da Netscape de 1995/96.

Não foi a toa que instalei em meu micro de trabalho aquele browser. A internet de 1995/96 era incipiente mas já tinha muito conteúdo grátis — e útil. Curiosamente, um dos meus sites favoritos daquela época era a Agência Estado (ficava no http://www.agestado.com.br, que hoje direciona para o Limão, do grupo OESP). Veja a página da Agência Estado em 29 de Dezembro de 1996, ou seja a exatos doze anos atrás. O site ofereceu, desde aquela época e por anos, as notícias curtas, rápidas e atualíssimas dessa que é uma das maiores agências de notícias do Brasil. Conteúdo grátis doze anos antes de um repórter do mesmo grupo jornalístico proclamar 2008 o ano do nascimento do conteúdo grátis.

Aquele mascote da Netscape em minha camiseta acabou tendo uma vida mais longa que a própria Netscape. “Mozilla” era o codinome do Projeto Netscape Navigator, antes de seu lançamento, em 1994. Mozilla porque era “Mosaic”+”Killer”: Mos+iller=Mosiller=Mozilla. Como o Godzila. O nome Mozilla permaneceu pois foi como batizaram a base de código liberada gratuitamente (“open source”) para o mundo, anos depois, quando a Netscape foi comprada pela AOL e sua presença no mercado de navegadores extinta, sacrificada. Essa base de código foi utilizada no Firefox (o neto do Mosaic) e levou o nome Mozilla para a próxima década.  “Mozilla Firefox” é hoje não o Mosaic Killer, mas, muitos gostariam, o candidato a “Internet Explorer Killer”. Eu, pelo menos, estou hoje aqui digitando este texto no Firefox 3.0.

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