Um milhão de acrônimos

Hoje estava no Taxi, trânsito ruim de São Paulo parado, e vi escrito no rádio de segunda linha do painel: MOSFET. Aquele aparelho tinha um acrônimo! Curioso que eu me lembrasse do que significa MOSFET, dado que já saí faz mais de dez anos da faculdade de engenharia elétrica. “Metal Oxide Semiconductor Field Effect Transistor“. Também curioso que tanto tempo depois da invenção do transistor, em plena época dos semicondutores banais e onipresentes, ainda haja fabricantes que escrevam “Contém transistor” num rádio. Haha. Como naquelas garrafas de água mineral onde escrevem “Não contém glúten”.

MOSFET é um acrônimo que não se vê todo dia. Mas tem muitos outros por aí, e minha cabeça por alguma razão guarda uma pá deles. Ah, sim, às vezes eles me entretêm, tantos que são, enquanto organizo uma coleção mental de variedade e curiosidades.

Acrônimos reciclados
Uma das primeiras coisas que notei foi como alguns acrônimos se repetiam em várias representações diferentes. O que mais encontrei, sem procurar, foi “ATM”. Pois faz muito tempo, desde que comecei a ter que lidar com bancos, que sabia que ATM era “Automatic Teller Machine“, ou “Máquina de Caixa Automático”. Mas quando cheguei na faculdade de engenharia elétrica e fui fazer um curso avançado de redes descobri que ATM era “Assynchronous Transfer Mode“, um protocolo bastante popular de transferência de dados. Lendo uma revista de carros encontrei ATM, a “All Terrain Motorcycle“, ou motocicleta fora-de-estrada, uma parente do ATV, “All Terrain Vehicle“. E um belo dia no Windows, antes da Microsoft colocar milhares de fontes de brinde, as pessoas começaram a usar um produto da Adobe chamado “Adobe Type Manager“, cujos arquivos de extensão ATM eram queridos e colecionados na internet.

Já contaram? ATM até agora tem 4 signficados absolutamente distintos. Foi quando minha mãe, que passou a vida inteira com dores de cabeça indo a médicos que não resolviam nada, encontrou um dentista que a diagnosticou com “Alta Tensão Mandibular” — ou seja, trincava os dentes a noite. O dentista receitou um aparelho para ela pôr na boca quando ia dormir, para resolver o “problema da ATM”. E a dor de cabeça parou…

Acrônimos invisíveis
Alguns acrônimos se tornaram parte da língua, se tornaram invisíveis como acrônimos. O mais comum deles talvez seja “Laser”. Esse eu tenho que usar o Google para me ajudar a lembrar: “Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation“. Ou seja, amplificação da luz por emissão estimulada de radiação. Ficou claro?

Há outros que se embutiram razoavelmente bem no vocabulário brasileiro. Yuppie (Young Urban Professional), originalmente a designação que os publicitários davam a um segmento do mercado consumidor, passou a significar algo como “Mauricinho gastador”. E AIDS, que em português deveria ser SIDA, síndrome da imuno-deficiência adquirida, mas todo mundo lembra do acrônimo em inglês. Também tem a TV e o DVD (televisão, por favor, essa todo mundo sabe, e o Digital Video Disc).

Em épocas mais puritanas os acrônimos substituiam palavrões. Na segunda guerra mundial os americanos tinham a expressão “SNAFU”, que significava “Situation Normal, All Fucked-Up“. Aqui no Brasil protegíamos os ouvidos das crianças com o “C.D.F.”, o “F.D.P.” e o Si-Fu. Vem dessas épocas também aquele que é provavelmente o mais invisível dos acrônimos: OK!

A autoria dos OK é atribuída ao presidente americano Ted Roosevelt que marcava as duas letrinhas nos documentos que revisava querendo dizer “All Correct!“. Em algumas pronúncias do inglês a palavra “All” e a letra “O” soam bastante parecidas… OK?

Acrônimos empresariais
Engraçadinhos que viram o poder dos acrônimos de criar novas palavras resolveram fazer o contrário, arrumar siglas para as palavras mais arbitrárias. Alguém se lembra de que queriam explicar que Yahoo (o site de busca) era um acrônimo de “Yet Another Hierarchically Organized Oracle“?

Mas grandes marcas americanas são acrônimos autênticos: IBM, GE, GM, AT&T… E as brasileiras CSN, SBT, CBN… BMW é Bayerische Motoren Werk, fábrica da Bavaria de Motores… FIAT é Fábrica Italiana de Automóveis Torino… Será que KIA é Korean Industry of Automobile?

Muito me orgulhei quando ao aprender alemão consegui decifrar aquelas letrinhas no final das empresas de lá (já notaram?): GmbH significa “Gesellschaft mit beschränkter Haftung“, ou seja, sociedade com responsabilidade limitada. No Brasil a mesma sigla é “Ltda.”

E quando fui estudar finanças pulularam acrônimos maravilhosos como o W.A.C.C. (Weighted Average Cost of Capital, o custo de capital), EBITDA (Earnings before Interest Taxes Depreciation and Amortization, veja o vídeo abaixo), CAGR (Compound Annual Growth Rate, crescimento anual composto) entre outras belezuras mais.

Acrônimos nacionais e partidários
Que eu saiba os Estados Unidos foram o primeiro grande país do mundo a assumir um acrônimo: USA. Que nas eleições e nas olimpíadas os americanos gritam: IÚ-ÉS-EI! IÚ-ÉS-EI!

Talvez por influência americana os ingleses passaram a se designar “The United Kingdom”, e assumiram a sigla “UK”. E para não ficar atrás, e aliás ficar na frente na contagem de letras, os finados soviéticos batizaram seu país de “URSS” — a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Que em russo se transformava em “CCCP”, a julgar pelos uniformes dos atletas.

Aqui no Brasil, com a exceção recente dos Democratas, o fetiche por acrônimos sempre foi grande na política. Tudo nasceu com Arena (“Aliança Renovadora Nacional”, situação) e MDB (“Movimento Democrático Brasileiro”, oposição), ainda na época dos militares. Mas brotaram feito mato PDT, PTB, PT, PCB, PC do B… e assim foram brotando outros.

Veja abaixo um trecho copiado de um noticiário político sobre a eleição em Minas Gerais. Julgue por você mesmo:

Em Contagem, na Grande Belo Horizonte, a disputa poderá ficar polarizada entre a psicóloga Marília Campos, que busca a reeleição pela Coligação Contagem Democrática Popular (PT-PSL-PHS-PPS-PT), e o ex-prefeito e deputado estadual Ademir Lucas (PSDB), da Coligação Avança Contagem (PSDB-PSDC-DEM-PP-PTC-PMN-PRP-PTdoB-PSC). Estão também no páreo o ex-prefeito Paulo Mattos (PTB), o deputado estadual Carlos Magno (PCdoB), da Coligação Contagem pra Você (PCdoB-PTN- PV-PRB), o aposentado Israel Pinheiro (PSTU), o professor de ensino superior Carlos Pimenta (PSOL), o contador Leonardo Antunes (PSB), da Coligação Vida Nova pra Contagem (PSB-PRTB-PR) e o empresário Sant Clair Terres (PMDB), da Coligação Pela Renovação de Contagem (PMDB-PDT).

Fala sério!

Acrônimos recursivos
Mas vamos voltar ao mundo limpo e estéril dos acrônimos científicos e tecnológicos. Entre eles há alguns bastante especiais, pois revelam em sua construção algo de técnicas de programação.

Programação modular, por exemplo, onde um módulo chama outro módulo, ou procedimento. Veja este: VHDL. Já ouviram? Em VHDL o “HDL” significa “Hardware Description Language“: uma linguagem que ao invés de conter procedimentos de um programa contém a descrição de um hardware físico. Pois bem, o “V” em VHDL (e essa é a parte interessante) representa um outro acrônimo! Ou seja, um acrônimo dentro de um acrônimo. O “V” nesse caso é de VHSIC (Very High Speed Integrated Circuit). Portanto, VHDL = VHSIC Hardware Description Language = Very High Speed Integrated Circuit Hardware Description Language. Que tal isso como concisão?

GNU Linux

E, numa brincadeira talvez só compreensível para programadores, há um acrônimo que usa de recursão. Ou seja, um módulo que chama a si mesmo recursivamente. Já ouviram falar da Free Software Foundation (Fundação do Software Livre) e do projeto GNU? Com ideólogos como Richard Stallman por trás, ela advoga que o software dever ser livre, de código aberto, e grátis, disponível a todos. Para isso criou em 1984 o Projeto GNU, que tinha como objetivo desenvolver um sistema operacional livre e terminou por dar ao Linux quase tudo que o Linux tem hoje (a forma correta de dizer “Meu computador roda Linux” seria dizer “Meu computador roda GNU/Linux”).

Pois bem, o que significa GNU no nome do projeto? É o acrônimo de “GNU is Not Unix”. Ou seja, o GNU usa o GNU em sua própria definição:
GNU = GNU is Not Unix = (GNU is Not Unix) is Not Unix = ((GNU is Not Unix) is Not Unix) is Not Unix (…)

É, pareceu engraçado na época.

Acrônimos modernos da internet
Nos dias de hoje, tempo de emails, torpedos e messengers, o terreno é muito fértil para novos acrônimos. Psc vou listar asap os que são, imho, os mais interessantes. A maioria é em inglês e, afaik, não tem equivalente em português:

  • afaik: As far as I know (tanto quanto eu saiba)
  • asap: As soon as possible (assim que possível)
  • imho: In my humble opinion (na minha humilde opinião)
  • ianal: I am not a lawyer (não sou advogado) — usado antes de dar um palpite sobre algum aspecto legal
  • rtfm: read the fucking manual (ler o maldito manual) — ou seja, não faça perguntas por preguiça de rtfm
  • fyi: for your information (para seu conhecimento)
  • psc: para seu conhecimento (aha!)

Com certeza existem muitos outros, muitos em português, muitos traduzindo gírias. Cada um tem os seus favoritos, sem os quais não vive na era contemporânea de hiper-conectividade.

Por fim, acrônimos letrados clássicos
Etc… todo mundo sabe que significa “et cetera”. “Cetera” talvez você não saiba que significa “resto” em latim. Ou seja, etc é “e o resto”. Há outras abreviações, e.g. “E.G.”. Em inglês muita gente lê “e.g.” como sendo “example given“, e em português há quem leia “exemplo geral”. Mas o correto novamente vem do latim, e é a abreviação de “exempli gratia”. Ou seja, para servir de exemplo.

“Id.” significa “Idem”, uma palavra em Latim que tanta gente conhece que chega a ser uma palavra em português. “Ibid.” significa “Ibidem”, que é quase a mesma coisa que “Idem”. “Sic”, que também vem do latim, parece um acrônimo mas não é: “Sic” significa “desse jeito”, e é usado quando queremos usar em nosso texto um erro de outra pessoa. Vão saber que vimos o erro mas escolhemos manter.

“Roseane disse que trouxe da Europa um pistola (sic) de peles”

Por fim, o glorioso acrônimo “C.Q.D.”, que se carimba ao fim dos longos problemas de cálculo ou física na faculdade. Os enunciados desses problemas começavam com “Prove que (…) e (…) são equivalentes” e a solução terminava com “C.Q.D.” Como Queríamos Demonstrar! Para um estudante introvertido pode ser o equivalente de bater no peito e urrar de satisfação.

C.Q.D.


Se você gostou deste post também deve gostar de:
A etimologia do bigode
Sete expressões idiomáticas

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11 respostas em “Um milhão de acrônimos

  1. olá pessoal, gostei muito desses acronimos, porem gostaria de saber se exite algum site ou livro de etmologia de palavras gregas,e.g:

    a palavra “longanimidade” no grego é(makrothumia)que é formado de makros=longo,
    e thumos=temperamento, outro exemplo, blasfemea que é formado de blapto=ofender e femé=honra. Existe algum dicionário ou livro ou site? por me ajudem.

    • Alex, não há bons recursos online em portugues de etimologia. Heis uma alternativa em inglês que uso e recomendo: o site do Online Etymology Dictionary. Para palavras de origem grega, que em geral são bem parecidas e comuns ao inglês e ao português, pode ser bem util.

      Por exemplo, digitando “blasphemy” o site informa que significa “falar mal de” e que vem de duas palavras gregas. Uma é “pheme” (menção, pronunciamento), palavra que também é raiz para a palavra “fama” (“fame”, em inglês). A outra tem raiz desconhecida mas provavelmente relacionada a “blaptikos” (dolorido) ou (outra teoria) relacionada a “blax” (frouxo, de corpo ou de mente, estúpido).

      Se você gosta de etimologia e origem das palavras talvez goste de ler também outros artigos deste site: etimologia versus história e expressões idiomáticas.

  2. Pingback: A etimologia do bigode | simplesmente

    • Tem razão, Luis, nesta página tem acrônimos e siglas, todos referidos como acrônimos. Fica a explicação abaixo. Obrigado pelo toque.

      “Tanto os acrónimos como as siglas são palavras formadas por letras ou sílabas iniciais, no entanto:
      * A sigla é pronunciada segundo a designação de cada letra, como no caso de CCB (Centro Cultural de Belém), pronunciado “cê” “cê” “bê”; porém há um convencionamento que se vem dando de que quando soletradas as letras que formam a sigla, esta seja denominada de ‘sigloide’ e quando tratadas como vocábulo, pronunciadas silabicamente como uma palavra qualquer da língua, que esse tipo de sigla receba a denominação de ‘siglema’, equivalendo dessa forma um siglema a um acrônimo.1
      * O acrónimo é pronunciado como uma palavra só, respeitando a estrutura silábica da língua,2 como no caso de MUDE (Museu do Design), pronunciado “mude”.”
      Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Acr%C3%B3nimo

  3. Tê-ele-dê-erre. Mas, sobre o começo, acho que o MOSFET estava escrito lá porque devia ser o tipo de amplificador usado. Tem o MOSFET e um outro lá que eu não lembro, de qualidade inferior. Acredito que estava escrito lá para dizer que o amplificador era de boa qualidade!

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