O segredo do dinheiro e a felicidade

O Brasil é um dos países do mundo mais obcecados com dinheiro. Dizem que na Rússia de hoje também se tem essa obsessão. Abre-se o jornal, liga-se a televisão, e as principais notícias têm a ver com o dinheiro: a renda, a inflação, o quanto ganhou o milionário, o quanto custa o que falta ao pobre… Essa obsessão pode bem ser sintoma de países em que é grande a disparidade de renda, em que é profundo o fosso social entre os que conseguiram e os que não conseguiram. Uma vez meu avô me falou: “Dinheiro não é tudo: é 90%. Os outros 10%,” complementou “com dinheiro é bem mais fácil conseguir.” Meu respeito por ele é enorme — mas discordo.

Dinheiro é o caminho da felicidade?

Ouvi uma estória anos atrás. É mais ou menos assim:

Um rico empresário paulistano dirigia seu utilitário esportivo pela costa, indo para o Nordeste encontrar sua família em férias. Anoitecia e ele cruzava o sul da Bahia quando o carro teve problemas mecânicos em uma estradinha secundária, ao lado do mar. Sem alternativa foi bater na porta de uma humilde casa de madeira, quase na praia. Foi atendido por um pescador muito pobre, que lhe deu janta e abrigo para dormir.

No dia seguinte o paulistano conheceu a família do pescador, sua esposa e oito filhos, enquanto aguardava socorro mecânico para seu veículo. E viu o quão grande era a pobreza deles, que nem luz elétrica tinham em casa e que dependiam da pesca que o mar provia. Depois do almoço resolveu que poderia fazer algo por eles. Disse assim ao pescador: “Obrigado por ter me ajudado. Em troca, eu gostaria de lhe ensinar o que eu sei, gostaria de lhe ensinar a ser rico!”

“Ólhe… eu num sei disso de ser rico não.” — disse o pescador.

“Mas eu quero te ensinar!” — disse o empresário — “Me diz, o que você faz todo dia?”

“Eu acordo cedo, pego minha vara e vô pescá! Pesco o que preciso. Depois passo o dia aqui na praia, descansando c’a minha mulher e co’ meus filhos.”

“Pois então, preste atenção: amanhã quando você sair para pescar você não pare quando tiver pouco peixe. Continue pescando tudo o que puder, pesque o máximo de peixe que conseguir. Trabalhe o dia todo!”

“É? Mas e aí?”

“Aí você vai pegar os seus peixes e levar para o mercado. Lá você vai vender tudo pelo melhor preço e guardar o dinheiro.”

“É?”

“É. E quando você tiver juntado um dinheiro, você vai comprar uma rede de pesca, que é para poder pescar mais peixe ainda.”

“Mas e aí?”

“Aí você com a rede pega muito mais peixe, continua pescando o máximo, leva tudo para o mercado. Você vai ver que vai ganhar mais dinheiro ainda.”

“É?”

“Isso! Você junta mais esse dinheiro e logo vai poder comprar um barco — e com o barco vai poder ir para mais longe, achar os maiores cardumes, trazer mais peixe.”

“E aí?'” — o pescador parecia intrigado.

“Aí você vai vendendo os peixes, e deve arrumar dinheiro para contratar ajudantes, contratar uma equipe para te ajudar a pescar e puxar mais peixe. Quando tiver mais dinheiro compre um segundo barco e coloque mais empregados naquele outro barco.”

“É?”

“É isso! Continue fazendo isso e logo você terá uma frota de barcos de pesca. Compre um depósito refrigerado para armazenar os peixes. Continue comprando barcos, empregando mais gente, construindo depósitos maiores e em mais cidades. Entendeu?”

“Entendi!”

“E agora vem a última parte: abra o capital da sua empresa, lance ações na bolsa, venda as ações e fique extremamente rico!”

“Ééé?!” — o olhos do pescador brilhavam, arregalados — “E… E.. E aí?”

“Aí? Aí você está rico! Você pode parar de trabalhar! Pode ir morar na praia! Passar o dia pescando e descansando com sua família!”

Uma vez contei essa estória para um rapaz, filho de um homem rico. Ele disse: “Isso funciona até o dia em que ele precisar de um hospital.” Bom ponto. A saúde pode ser frágil. A vida é finita. Mas, pergunto eu, o fato de que a doença e a morte podem vir puxar o pé de qualquer um de nós não seria justamente uma boa razão para refletir sobre as prioridades que temos na vida?

Que não seja o dinheiro — meio de troca desde sua concepção — desculpa para sofrer. Nem seja ele licença para não refletir sobre o que se quer, sobre o que é importante.

Dinheiro é obstáculo à felicidade?

Igualmente tola, ou talvez mais tola ainda, é a idéia de que o dinheiro nos afasta da virtude e da felicidade. Nisso tem o dedo histórico da religião católica, que veio marcada por uma visão de mundo asceta, renunciadora da riqueza e dos confortos. Esse viés Franciscano é relativamente recente — do fim da idade média — mas estava latente no cristianismo desde o início. Ele se manifestou como reação à crescente opulência européia, e à forte associação entre a nobreza e o clero. O casamento Nobreza-Clero tendia a corromper e em última instância descaracterizar esse último. Surgiram monges que vagavam pelo mundo sem nenhuma posse a não ser um manto e sandálias. E espalhou-se o mito do pobre virtuoso: você é rico mas eu tenho mais base moral!

Ecos dessa visão estão hoje na esquerda brasileira, como a russa plantada em chão arado pelo cristianismo. Estão na visão implícita tanto no católico quanto no socialista de que as pessoas têm necessidades importantes e vontades desimportantes: Fome santa e desejo sujo.

Por mais que alguém busque justificar o que faz usando valores absolutos ou verdades profundas no fim toda atitude humana é manifestação de desejo, da vontade individual. Ao admitir o conceito do livre arbítrio o cristão admite que é movido por sua própria vontade e, portanto, seu próprio desejo. O que faz é sempre o que quer fazer, dentro do que se alcança.

Desejar o material não é diferente de desejar o espiritual: em ambos os casos se satisfaz um ego. Seja o ego sovina do gordo rico, seja o ego esperançoso de reconhecimento divino do beato. O sujeito de bom coração é um ambicioso: ambiciona as “boas vibrações” que vêm de praticar o bem. E digo isso não para negar que existe bondade: essa ambição não torna o bondoso menos bom, como não torna o rico menos rico.

Um milionário americano visitou a Índia alguns anos atrás e quis conhecer Madre Teresa. Ao vê-la ao meio dos enfermos na extrema pobreza, tratando das chagas imundas dos doentes, ele se espantou:

“Madre, com todo o respeito, mas isso que a senhora faz eu não faria por todo o dinheiro do mundo!”

“Nem eu, meu filho, nem eu…”

Bill Gates e Warren Buffet: Bilionários por acaso

Dizia minha mãe, faça o que você gosta, faça bem, e o dinheiro virá por conseqüência. Isso é sábio. Li a biografia de dois bilionários conhecidos: Warren Buffet (inglês, português) e Bill Gates (inglês). Fica óbvio para quem os conhece que eles, nascidos na classe média, não estavam atrás de dinheiro em si. Aliás, é muito difícil alguém que quer simplesmente dinheiro chegar a bilionário. Dinheiro por dinheiro, milhões já satisfariam. Não seriam necessários bilhões: teriam parado antes. Os bilionários não queriam dinheiro.

Bill Gates era um nerd quando adolescente. Inteligente (geniozinho), anti-social, enfurnado nos computadores e sem namorada. Diz a biografia que sua mãe levou a filha de uma amiga para conversar com o jovem Bill em casa, ver se ele se interessava, quem sabe, pelo sexo oposto. A menina (que anos depois se casaria com outro) disse que uma das primeiras coisas que Bill perguntou para ela foi: “Qual nota você tirou no simulado do vestibular?”. Gates disse pra ela “Eu gabaritei!” Entrou em Harvard por mérito acadêmico, mas largou o curso onde socializou com poucos (entre eles Steve Ballmer, hoje presidente da Microsoft). Fundou uma empresa de software que vendeu um sistema operacional para o primeiro micro-computador da IBM… o resto virou história. Tornou-se muito jovem um bilionário, e depois só foi ficando mais rico.

Bill Gates não se fez Bill Gates para ficar rico. Ele era quem era, do jeito que quis ser, fazendo o que bem entendeu. Se tornou o que se tornou fazendo o que gostava. E hoje, aposentado da função executiva na empresa que criou, já comprometeu praticamente toda sua fortuna para fins beneficientes, através da Bill and Melinda Gates Foundation . Ou seja, ele fez totalmente diferente mas exatamente igual a Madre Teresa de Calcutá: como ela foi autêntico e bem intencionado.

Warren Buffet tem outra história totalmente diferente mas exatamente igual. Quando era garoto catava bolas de golfe perdidas, limpava e revendia para os golfistas. Ainda adolescente comprou uma máquina de fliperama usada e colocou em um bar para que ela lhe gerasse dinheiro. Quando mais velho comprou ações e empresas inteiras, estava fazendo aquilo que gostava de fazer quando era garoto — aquilo que o divertia. O dinheiro que ganhou não gastou praticamente nada consigo mesmo. Morou a vida inteira, da juventude até sua atual velhice, em Omaha, Nebraska. Um lugar tão a esmo nos Estados Unidos quanto, digamos, Teresina, Piauí. Dono de uma fortuna de cerca de quarenta bilhões de dólares, mora na casa modesta que comprou décadas atrás por trinta mil dólares. Sem extravagâncias, sem ostentações, para jantar pede sempre a mesma coisa: filé com batatas. E para beber, Coca Cola (na verdade Cherry Coke, sabor não lançado no Brasil), prestigiando a empresa da qual é o maior acionista individual.

Buffet teve três filhos e hoje é um senhor de 77 anos. Fiel a seus princípios, já especificou que toda a sua fortuna vá para a filantropia — especificamente, vá se juntar à fortuna de Bill Gates na Bill and Melinda Gates Foundation. Não deixará nenhuma parcela significativa de seu patrimônio para seus filhos, por princípios. Disse “Quero deixar para meus filhos dinheiro suficiente para que eles sintam que podem fazer o que quiserem, mas não tanto que eles sintam que não querem fazer nada.” De forma mais geral, ele apoia a taxação sobre heranças: não acha recomendável que o comando das empresas seja passado adiante pelo laço de herança. Disse Buffet: “Isso seria como escolher a equipe para a Olimpíada de 2,020 dentre os filhos do medalhistas de ouro da Olimpíada de 2,000.” Buffet tinha algumas virtudes, e o bom senso era uma delas.

Um último pensamento sobre a felicidade
Se você faz o que gosta, pode ganhar muito dinheiro. Isso nos provam Buffet e Gates, e nos provam Ronaldinho e Pelé. Se fizer o que gosta também pode não ganhar nenhum dinheiro, claro. Mas pelo menos não terá lançado seu tempo na busca de algo que para você nada vale.

Termino com uma última estória (que não é autobiográfica, mas é bonita):


Sempre lembrarei de meu avô como um pintor — sua casa era um atelier, e ele passava todo o tempo no meio das tintas, pincéis e telas. Autor de muitos quadros, nunca foi reconhecido como talentoso. Suas obras nunca venderam por muito, nunca receberam prêmios, nunca alcançaram galerias. E um dia, quando ainda era menino, sentei-me com ele e perguntei:

“Vovô, você pintou quadros a vida inteira mas nunca alcançou o sucesso. Porque, depois de todos esses anos, continuou insistindo? Porquê não parou e foi fazer outra coisa?”

Ele sorriu e disse:

“Meu neto querido, na vida posso ter perdido todas as batalhas, mas minha guerra eu escolhi.”


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9 respostas em “O segredo do dinheiro e a felicidade

  1. Muito Bom, o mundo gira em torno do dinheiro,tudo o que voce quer fazer necessita do dinheiro,portanto os governantes e os religiosos sabe quanto mais dinheiro voce tiver mais dificil para eles te fazer a cabeça,porque com dinheiro na mão voce pode comprar mais informações e eles sabem quanto mais desinformado o povo melhor para eles impor os paradiguima ou seja fica mais facil eles dominarem e apreoveitar da fraqueza que e a necessidade do cidadão de ter dinheiro.

  2. Gostei tanto que vou deixar mais um comentario,a maioria dos casais brigam por causa do dinheiro, uns porque não tem as contas começa vencer e eles não tem dinheiro para pagar e outros e porque tem muitos, a briga aqui e para repartir o que tem.

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