Sete expressões idiomáticas

Você sabe o que têm em comum extrativismo, tração animal, palmatória, chauvinismo, fliperama, disco de vinil e carburador? Bem, esses sete são, cada um, originadores datados de pelo menos uma expressão idiomática comum. A expressão você provalmente já conhece, mas consegue associar com a origem histórica?


1. “Quem não tem cão caça com gato”
Origem: Extrativismo

Havia uma época, meus netos, em que as terras eram cobertas de mata, e havia muita caça: capivara, tatu e até paca! Naquela época nasceu a expressão aí de cima. Tem uns que dizem que originalmente era “Quem não tem cão caça como gato”. Não sei, não me lembro. Hoje nós que compramos nossos frangos em pedaços na seção de congelados do Carrefour mal podemos imaginar o que era a época de sair para caçar, chegar em casa com o bicho morto na sela, não ter geladeira. Mas daquela época ainda usamos expressões como “Um dia é da caça outro do caçador”.


2. “Enfiou o pé na jaca”
Origem: Tração Animal

Tinha um tempo que para subir a serra do mar, saindo de São Vicente para chegar a São Paulo de Piratininga, demorava-se mais que um dia. E usavam-se jumentos para carga. Cada jumento levava dois jacás, ou cestos de bambu, onde se colocavam mantimentos, tecidos, toda a bagagem. Sim, jacás, com acento agudo no á. Naquela época não tinha a Rodovia dos Imigrantes, não tinha motocicleta nem automóvel. E se o sujeito fazia uma parada para tomar uma branquinha e voltava meio zonzo, bambeando, para montar no jumento podia se entortar todo e ao invés de colocar o pé no estribo enfiar o pé no jacá. Um papelão, um papel de besta. Já faz muito tempo que as cargas já não sobem mais a serra nos jumentos, mas sabe como são as expressões, né? Quando pegam ficam.


3. “Não me encha o saco”
Origem: Palmatória

Mas olha só, que quando o seu avô era pequeno ele se lembra: a bisa era uma fera. Isso foi muito antes desses livros todos ensinarem que em criança não se bate. Criança apanhava naquela época, era mão à palmatória, surras de deixar roxo — ai de quem não se alinhasse. Pois quando se fazia alguma coisa errada vinha aquele olhar fulminante da mãe. Ela dizia: Paciência tem limite, cada coisinha errada que você faz, eu coloco dentro do saco… e quando o saco estoura, você já sabe! Os meninos sabiam: surra na certa. Ai de quando o saco estoura! Engraçado que hoje as crianças já nem mais apanham, mas essa expressão ficou. Acho que foi o trauma.


4. “Vou tirar água do joelho”
Origem: Chauvinismo

Hoje é meio fora de moda, mas homem macho se gabava e se impunha, se fazia de mais macho, se empoava todo, cantava de galo. Tá olhando o quê? Cada um se virava para arrumar mais um jeito de contar como era mais macho que os outros. E numa rodada de cerveja, quando um se levantava para ir ao banheiro, soltava a essa frase: “Vou tirar uma água do joelho”. Isso porque queria que alguém perguntasse, que história é essa, tirar água do joelho? Para poder bater no peito e dizer, “pois é da altura do joelho que sai a água amarela quando eu vou no banheiro.” Benga grande é coisa de macho. Muito papo furado. Com o tempo todo mundo já conhecia essa história e não caia mais, não perguntava nada. Até que uns chegaram tarde e começaram a repeti-la a toa, sem saber porquê. Outro dia ouvi uma moça dizendo “vou tirar água do joelho.” Acho que esqueceram mesmo de onde veio isso.


5. “Deu tilte”

Origem: Fliperama

Há muito tempo atrás, muito antes dos PS3 e dos Xbox 360, havia uns brinquedos eletromecânicos de colocar fichinha para jogar: os fliperamas, conhecidos em inglês como “pinball”. Se você já viu um, meu jovem, é até capaz de ter sido num simulador em vídeo. Ou num museu. Mas eram o máximo em entretenimento juvenil 50 anos atrás. Um fliperama era uma mesa com tampo de vidro dentro da qual ficava uma bola de metal para ficar batendo para cima com umas manoplas e marcando pontos, acendendo luzinhas e tocando sininhos. Você perdia quando a bola caia na canaleta, como no boliche, ou passava por entre as manoplas. Para desesperadamente evitar esse fim o jogador podia tentar trapaceando inclinar a mesa, redirecionar a bola. Por isso todo pinball tinha um sensor de inclinação que interrompia o jogo, sem direito a segunda chance, se a máquina era inclinada, balançada ou estapeada. Ao fazer isso ficava piscando uma palavra na cara do sujeito TILT, TILT, TILT. Que vem do verbo “to tilt”, ou “inclinar”, em inglês. Hoje em dia tem gente que nunca jogou um fliperama, mas usa “Deu Tilte” para dizer que algo parou de funcionar, enguiçou. Interessante é que isso virou uma expressão no Brasil — mas não na pátria dos fliperamas.


6. “Tudo na vida tem um lado bom, menos disco do engenheiros do hawaii”
Origem: Disco de vinil

Você deve se lembrar que antes dos MP3 baixados da internet havia uma época em que se compravam CDs de música, uns disquinhos prateados. Pois bem, os discos de vinil eram o que havia antes dos CDs: uns discos bem grandes, bem maiores que um CD, todos pretos e cheios de ranhuras que guardavam a música. E ao contrário do CD tinham dois lados: Lado A e Lado B. Você tinha que tirar o disco com as mãos e virar o lado para ouvir a outra metade do disco. Que coisa, dá para imaginar? Era assim. Muitas vezes um disco tinha um lado com músicas melhores que as do outro lado — você acabava deixando na vitrola sempre daquele mesmo lado, e acostumava com as músicas. Mas também naquela época tinha um grupo de rock nacional chamado “Engenheiros do Hawaii” que tinha umas músicas tão chatas, tão sem pé nem cabeça que o pessoal criou a divertida expressão acima. Ela fica esquisita na época dos CDs, mais ainda na época dos MP3. Mas acreditem, um dia já fez sentido. Como as relacionadas “Vira o disco” e “Você parece um disco arranhado.”


7. “Ele não bate bem”
Origem: Carburador

Hoje temos motores de combustão moderníssimos, de injeção eletrônica multi-ponto controlada por computador. Mas nem sempre foi assim, não na época em que seu pai aprendeu a dirigir: a época do carburador. Um carburador tentava fazer mais ou menos o que o sistema de injeção eletrônica faz hoje, mas nem sempre fazia bem. Nos primeiros carros não era incomum falhar a ignição completa dos gases em um cilindro. E isso causava um ruído meio feio no motor, um “téc” alto. No popular chamavam isso de bater pino. Como ir ao mecânico e dizer “o motor está batendo pino.” Hoje não tem mais isso. Nem tinha muito isso no fim da época do carburador. Mas já foi um dia uma ocorrência tão comum que surgiu a expressão: “Fulano está batendo pino” ou, o que dá na mesma, “Fulano não bate bem.” Foram-se os carburadores, ficaram as expressões.


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