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Niemeyer: a vida é um sopro, a obra é um cuspe

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O rei está nu, não vou deixar de ser um dos poucos a apontar. Oscar Niemeyer, a prima dona da arquitetura brasileira, pregou uma peça em sucessivos reis brasileiros. Sua arte foi vender escultura como arquitetura, vender o diferente como o criativo, vender o datado como o novo clássico, atemporal. A população do reino, seja para agradar o rei, seja para parecer moderna, ficou muda, aplaudiu. Assim não arriscou ser apedrejada como ignorante ao discordar da massa letrada e chique. O rei esta nu. A obra de Niemeyer é um conjunto de experimentos: algumas vezes brega, em geral tola, e quase sempre inimiga do bom senso.

Concreto armado

Niemeyer abraçou a técnica construtiva do concreto armado. Com concreto armado podem ser feitas estruturas impossíveis sob as técnicas anteriores, ou seja, com concreto armado é possível fugir das formas arquitetônicas refinadas por séculos, como as utilizadas na Catedral da Sé. O cimento moderno (Cimento Portland) surgiu em meados do século XIX. Com o desenvolvimento de aços mais resistentes nos idos de 1930 surgiu o concreto armado capaz de realizar grandes construções. Eis então que na década de 1950 Niemeyer surge brandindo essa tecnologia em sua arquitetura.

Grande parte da inovação atribuída a Niemeyer vem disso: usar um material construtivo relativamente sem restrições, em uma época que ele era ainda novidade. Entendo que a inovação aqui estava na tecnologia, que veio independente de Niemeyer e seguiu, inexorável, para dominar a construção civil no Brasil. A questão mais importante não é se ele fez diferente, pois isso seria quase inevitável. Chave é se a forma que ele escolheu fez sentido em última análise. Se sua obra foi simplesmente uma paleta de experimentação das possibilidades de uma tecnologia nova, pagamos caro para ele fazer protótipos faraônicos. De tudo aquilo que o concreto armado possibilitava, terá sido a escolha arquitetônica feita por Niemeyer particularmente feliz?

Não acho. Acho que ele foi uma vítima da ausência de restrições impostas à sua obra, sejam de adequação ao uso, de orçamento ou de tecnologia construtiva. A maior restrição à criatividade é a ausência de restrições. E foi isso que atingiu Niemeyer. Houve uma tal falta de parâmetros que o resultado foram obras excêntricas, traços de lápis no papel transformados em extravagâncias esculturais. O único parâmetro foi a preferência pessoal do artista, que ao se tornar pop se tornou inquestionável, e ao se tornar inquestionável se tornou burra, como qualquer unanimidade.

Desconectado do natural

Niemeyer é geométrico, linhas, curvas e volumes. Não há nada de orgânico em sua obra. Não há nenhuma capacidade de usar a natureza, nem de se integrar à ela, como grandes arquitetos fizeram. As instruções deste arquiteto são para eliminar as árvores, afastar a vegetação, deixar o árido dos horizontes nus para que os traços da geometria euclidiana apareçam. Nisso ele manifesta o crime da civilização ocidental, trazida a nós desde o descobrimento: encarar a mata, os bichos, as águas, as pedras como os imperfeitos, aqueles no caminho do estabelecimento da visão racional e idealizada do homem. Estamos no ano 2000, e durante os últimos 100 anos evoluímos para incorporar a visão da civilização oriental, de harmonia com a natureza. Grandes arquitetos, como Frank Lloyd Wright, sempre estiveram sintonizados nessa necessidade. Nosso Oscar Niemeyer não, ficou com a roda presa no passado, não conseguiu fazer nada com a natureza além de usar como base para fincar suas formas geométricas extravagantes. Que poderiam estar pousadas em qualquer lugar, desintegradas que são.

Especificamente, as falhas de Niemeyer são:

  1. Não envolve o projeto com o que o cenário natural, virgem, lhe proporcionava;
  2. Não faz uso de vegetação ou paisagismo, pelo contrário, arranca toda a vegetação;
  3. Não faz uso de materiais locais, que fariam todo o projeto se harmonizar com o contorno: pedras, terra, madeira.

Note de forma muito evidente essas falhas ao comparar dois projetos. De um lado, Fallingwater House, projetada em 1935 pelo arquiteto Frank Lloyd Wright. A casa usa pedras locais, se envolve com a vegetação e se encaixa no terreno de tal forma que seria inimaginável ter aquela construção em qualquer outro lugar. Do outro lado, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, às margens da Bahia da Guanabara, um cenário natural belíssimo, extremamente generoso e repleto de possibilidades que Niemeyer ignorou, preferindo colocar uma taça, tola, sobre a pedra. Nada na construção do museu faz alusão ao contorno. Nenhuma vegetação o adorna. Sua cor branca é neutra e estéril como uma lata de tinta acrílica. Todo o projeto poderia ser transferido para outro lugar qualquer, e continuaria inteiro, indiferente. Não é surpresa ser comparado a um disco voador. Pena que não voa.

Sem compromisso funcional

Antes de tudo, o que me chamou a atenção de que alguma coisa não funcionava nas obras de Niemeyer foi o Congresso Nacional. Estive a alguns anos em Brasília a trabalho, hospedado próximo à Esplanada dos Ministérios. A esplanada é uma impressionante avenida, com um grande gramado no centro, muitas autopistas e uma série de prédios padronizados, os ministérios. Uma noite pude ver toda esplanada com o congresso ao fundo, tudo iluminado, e fiquei impressionado com a bela vista.

Passando de taxi em frente ao Congresso, no outro dia de manhã, tentei imaginar como seria estar vendo aquilo tudo da mais impressionante das construções da Esplanada, o Congresso Nacional. Foi então que me dei conta, pasmo: as janelas dos prédios do Congresso Nacional não davam, nenhuma delas, de frente para a Esplanada. Pelo contrário, os dois prédios eram como que caixas de cigarro de pé, frente a frente, e as janelas estavam, metade delas pelo menos, se abrindo para o prédio vizinho, quase colado. Ficou claro para mim: para criar uma escultura que, vista de longe fosse bonita, Niemeyer passou por cima do bem estar e do interesse dos funcionários públicos que usariam o prédio. Construiu, em essência, um prédio para olhar de fora, não para ocupar.

Infelizmente decisões como essa, em que a estética puxa a obra e a “usabilidade” do espaço é considerada secundariamente, se tanto, são aparentemente constantes na obra de Niemeyer. Houve uma pequena discussão, muito interessante, em torno de um artigo escrito por Daniel Piza, de O Estado de São Paulo, chamado “Niemeyer e a Unanimidade“. Um dos visitantes, chamado Gilberto, escreveu:

“Já tentou assistir uma missa na Catedral? Não se escuta nada.
Já foi a uma recepção no Palácio da Alvorada? Dizem (lá eu nunca fui) que o cheiro de fritura invade o salão.
Já foi ao Teatro Nacional? Se você tiver mais de 1,70 (1,70!) suas pernas encostarão na poltrona da frente.
Já entrou no Palácio do Planalto? Quente, muito quente.
Já andou pelo Congresso Nacional? Um desperdício de espaço como poucos.
Dizem que viver no Copan é um inferno.”

Ao que um outro, tentando defender Niemeyer e em minha opinião desenterrando de vez a base da reputação do arquiteto, retrucou:

“A última coisa que a pessoa deveria se preocupar quando visita algo de Niemeyer é se o lugar tem banheiro ou não. (…) Ele, Niemeyer, simplesmente tem um visao diferente de como deve ser arquitetura.”

Ora, que espécie de passe-livre é esse que é dado a Niemeyer? Esse tipo de posição, que ensina ignorar o que é evidente, faz perfeito paralelo com aquela parábola infantil, “A Roupa Nova do Rei.” Será que devemos dividir a classe dos arquitetos brasileiros em dois tipos: Niemeyer, que não precisa colocar banheiros, e todos os outros, que precisam? A questão não é, nunca foi, funcionalidade versus originalidade. Uma excelente funcionalidade convive com um desenho original e o valoriza. O Hotel Unique , um projeto do arquiteto Ruy Ohtake, em São Paulo, demonstra isso. O equilíbrio de todas as demandas de um projeto diferencia o grande arquiteto.

A obra de Niemeyer junta a falta de apego ao natural com a falta de visão funcional ao realizar prédios com dependência crônica de iluminação artificial e ar condicionado. Ou seja, prédios anti-ecológicos, lástimas terríveis quando julgados sob a ótica da eficiência energética e economia dos recursos naturais. Paulo Boccato, um comentarista mais exaltado do mesmo artigo do Daniel Piza, escreveu sobre a Biblioteca do Memorial da América Latina, projetada por Niemeyer:

“Ele pensou em tudo o que foi estético mas esqueceu que o prédio seria usado para se ler e guardar livros, usado por gente de carne e osso (…). O resultado é uma biblioteca onde a luz é péssima (parece um shopping center ou cassino, não há janelas e luz) e onde as pessoas caem tropeçam a todo instante no piso cheio de recuos e recortes.”

Não posso julgar a funcionalidade do total da obra sem ter visitado tudo, mas o que vi, e o que ouço dos que conhecem o que não vi, parece reforçar aquela minha primeira impressão do Congresso Nacional em Brasília.

Casado com o estatismo

Um aspecto notável da trajetória profissional do arquiteto Oscar Niemeyer foi seu relacionamento com o governo brasileiro. Niemeyer, stalinista, conseguiu o sonho comunista de ter o estado lhe provendo aquilo que queria. Em troca deu ao estado aquilo que ao estado era importante. Ou seja, emprestou sua grife arquitetônica para obras acessórias onde o orçamento não era uma questão. Um político sempre pode ter os custos, a execução ou a finalidade de uma obra pública questionados. Mas dizer “é um projeto de Oscar Niemeyer” serve como um espécie de seguro contra críticas ou maior intromissão. Mais do que o talento, o patrimônio pessoal de Niemeyer é ter se tornado uma marca que atinge um ponto macio no coração da maior parte dos brasileiros, junto com a Bossa Nova e JK.

O relacionamento tão proveitoso, tão ganha-ganha entre Niemeyer e o estado brasileiro, impactou aquele que nunca sentou na mesa mas que sempre paga a conta, o público, vulgo “povo.” Houvesse Niemeyer continuado a se colocar em pleito popular, criando obras que o público individualmente comprasse, haveria outro diagnóstico. Entretanto, desde que descobriu o caminho estatal Niemeyer se divorciou do mercado habitacional e comercial. Ou seja, fugiu do risco de não agradar. Achar um museu muito bom, quando não se vê o que foi pago, é uma coisa. Pagar o preço de um apartamento ou de um escritório dá um outro senso crítico.

O fascínio ideológico de Niemeyer o fez homenagear sem nenhuma sutileza o livro “Veias Abertas da América Latina”, escrito em 1971 pelo uruguaio Eduardo Galeano. Na cabeceira da esquerda em todo o continente, tal texto reuniu elementos de inúmeras passagens históricas para repetir com forte carga emocional o mesmo ponto quinhentas vezes: nós, Latino Americanos, somos pobres porque eles, os outros, os “países do centro”, os colonizadores, são ricos. Nas décadas de 70, 80 e 90 os intelectuais daqui se embebedavam nessa conveniente terceirização da responsabilidade pelo nosso atraso. O livro é um coquetel dramático de 3/4 de “Ó deus, ó vida, ó azar” e 1/4 de inveja, adornado com uma cereja de complacência fincada num palito de fatalismo. Nas mesmas décadas Coréia do Sul, Singapura, Malásia e Tailândia, que eram tão pobres quanto a América Latina (e foram tão colônias quanto) trabalharam e “enricaram”. Sem ler Galeano.

No Brasil e na América Latina quem tem as mãos manchadas do sangue incriminante da pobreza, a classe expoliadora que tem na falta de ética uma virtude, é a corte estatal. Não menos do que a corte que os franceses extinguiram na Bastilha, a corte estatal nacional, dos coronéis aos sindicalistas, vive num mundo esdrúxulo de apropriação e mal-uso da riqueza produzida pelo resto da sociedade. Toda espécie de arbitrariedade fiscal é imposta à população, sangrando a veia. Niemeyer dessa sangria é cúmplice entusiasmado. Não parece extremamente lógico uma obra faraônica ser paga pelo estado para propagandear que o sanguessuga das riquezas na verdade é outro, lá no estrangeiro? E não faz todo o sentido que tal obra seja assinada por um escultor que gostaria que tudo pertencesse ao estado?

Preso no passado

A opção estética de Brasília foi uma grande aposta. Por um lado foram conservadores ao deixar todo o projeto na mão de dois homens, cada qual com sua alçada, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Assim diminuiram o risco de falta de harmonia. Por outro lado incentivaram-los a montar uma estética que em tal escala “nunca antes neste país” havia sido feita. Nem nunca antes em lugar algum. A aposta era que estaria sendo inaugurado um novo estilo, uma marca de modernidade para o Brasil, sôfrego pela aura de país do futuro. Enquanto a URSS e os EUA testavam armas atômicas, disputavam a corrida espacial e colocavam os primeiros astronautas em órbita o Brasil construia Brasília. Era um outro mundo.

Muito da estética dos anos 60 sobreviveu, ficou clássica, como as mini-saias. Muito também ficou irremediavelmente datado, como os carros rabo-de-peixe imitando foguetes. A estética de Niemeyer não está nem em um extremo nem em outro. Mas algo dela ficou presa naquele passado. As obras de Niemeyer dos últimos anos não conseguem deixar de mostrar uma defasagem com relação a arquitetura atual, defasagem que o faz parecer datado, sem modernidade. Chama atenção, por exemplo, o contraste entre o Museu Oscar Niemeyer de Curitiba e o Museu Guggenheim de Bilbao, de Frank Gehry. O projeto de Curitiba decididamente tem aparência mais antiquada, embora tenha sido inaugurado em 2002, cinco anos depois da inauguração do Guggenheim de Bilbao.

Mesmo julgando Niemeyer pelo padrão da sua época mais fértil, quando Brasília foi construída, encontramos nele um arquiteto que não era revolucionário, mas apenas sintonizado com o período. Em 1957 Jorn Utzon (quem?), um arquiteto dinamarquês, foi campeão em um concurso proposto pelo Governo Australiano, com o projeto da Sidney Opera House. O edifício se tornaria símbolo da Austrália.

Contemporânea a Brasília, a Sidney Opera House reforça o ponto de que o talento de Oscar Niemeyer para as curvas e os desenhos marcantes poder ter sido grande, mas não impar.

Um arquiteto

Oscar Niemeyer está em processo de canonização, aguardando para se juntar ao panteão dos heróis do país. É praxe nacional, como na Igreja Católica, não canonizar ninguém em vida (Pelé foi uma exceção). Com seus hoje 100 anos de idade, no entanto, Niemeyer em breve superará os últimos requisitos para deixar de ser um homem e virar um santo. Como homem-símbolo vai preencher uma gavetinha na psiquê brasileira, uma gavetinha onde está escrito “arquiteto”. Igual a Santos Dumont, Villa-Lobos e Ruy Barbosa, que ocupam eternamente as gavetas “inventor”, “compositor” e “intelectual”, ele em breve será inatacável. Será tão perfeito quanto as aspirações do país, será oficializado um dos maiores talentos que o mundo já viu. Nessa condição permanecerá para sempre, da mesma forma que infinitos ronaldos e maradonas nascerão sem nunca tocar em Pelé. Criticá-lo ou questionar sua grandeza será um crime de lesa-pátria, como cuspir na bandeira.

Eu sou um tolo brasileiro qualquer, sem formação artística. E assim vejo Niemeyer: como um arquiteto, não como o pai de todos os arquitetos, não como o arquiteto para acabar com todos os arquitetos. No meio da comoção nacional, em meio ao festival de eulogias que se seguirá ao anúncio de sua passagem, gostaria que alguém lembrasse que ele não foi perfeito. Suas criações dizem, a quem souber ouvir, que ele foi apenas um homem, com suas qualidades e capacidades, com seus defeitos e limitações. Que não fechem o caixão da arquitetura brasileira com Niemeyer, pois há e haverá muita coisa coisa para ver além de sua obra, no Brasil e no mundo, se nosso ufanismo não nos cegar.

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