Doze policiais, um assassinato

Eu fiquei, claro, muito triste em saber que a Srta. J tinha sido lentamente estuprada e assassinada por um brutamontes, um criminoso comum, ao longo de uma hora e cinquenta e cinco minutos; mas quando descobri que seu tormento tinha ocorrido à plena vista de doze policiais a paisana, todos portando armas, e que esses doze policiais ignoraram seus gritos aterrorizados, apenas assistindo o ato cruel até seu triste desfecho, entrei em uma crise pessoal. Entenda, os policiais eram todos amigos, muito próximos a mim, mas agora eu encontrava minha confiança neles abalada até a base. Felizmente consegui conversar com todos mais tarde, e perguntar como eles puderam ficar parados sem fazer nada enquanto poderiam ter salvo a Srta. J com tanta facilidade.

Doze Policiais

“Eu pensei em intervir,” disse o primeiro policial, “mas me ocorreu que era obviamente melhor para o assassino poder exercitar seu livre arbítrio do que tê-lo restrito. Eu lamento profundamente as escolhas que ele fez, mas esse é o preço de ter um mundo com agentes livres. Você preferiria que todos no mundo fossem robôs? As escolhas do atacante claramente não estavam em meu controle, portanto eu não posso ser responsabilizado por suas escolhas.”

“Bem,” disse o segundo oficial, “minha motivação foi um pouco diferente. Eu estava pronto para apontar o meu revólver para o assassino quando eu pensei comigo, ‘Mas espere, essa não seria uma oportunidade perfeita para que algum transeunte desarmado exerça um ato de heróismo desinteressado, se algum por sorte aparecer? Se eu interviesse toda hora, como eu estava prestes a fazer, ninguém jamais poderia exercer tal ato de virtude. Na verdade, todos provavelmente ficariam muito mal-acostumados e auto-centrados se eu evitasse todo ato de estupro e assassinato.’ Então eu voltei atrás. É uma infelicidade que ninguém tenha surgido para intervir heroicamente, mas esse é o preço que se paga para ter um universo onde as pessoas podem demonstrar virtude e maturidade. Você preferiria ter um mundo onde só houvesse amor, paz, e rosas?”

“Eu nem pensei em intervir,” disse o terceiro policial. “Eu provavelmente teria intervido se eu não tivesse tanta experiência sobre a vida como um todo, pois o estupro e assassinato da Srta. J admitidamente parecem bem horríveis tomados de forma isolada. Mas quando você os coloca no contexto do resto da vida, eles na verdade adicionam à beleza geral. Os gritos da Srta. J foram como as notas dissonantes que fazem as grandes composições musicais melhores do que teriam sido se todas as notas fosse impecáveis. Na verdade, eu quase não resisti a balançar meus braços no ar, imaginando-me a conduzir as nuances deliciosas da orquestra.”

“Quando cheguei à cena eu na verdade puxei meu revólver e o apontei bem para a cabeça do estuprador,” confessou o quarto policial, com um olhar de culpa em sua face. “Estou profundamente envergonhado de ter feito isso. Você sabe o quão perto eu cheguei de destruir toda a bondade do mundo? Quer dizer, nós todos sabemos que não pode haver nenhum bem sem o mal. Felizmente eu me lembrei disso, bem a tempo, e uma onda de náusea tão forte veio sobre mim ao me dar conta do que quase havia feito, que cai de joelhos no chão. Essa foi por pouco.”

“Olha, não faz nenhum sentido tentar explicar os detalhes,” disse o quinto policial, a quem nós apelidávamos de ‘Caxias’ porque ele tinha um conhecimento enciclopédico de literalmente todas as coisas e um QI acima de qualquer medida. “Há uma excelente razão pela qual eu não intervi, só que ela é muito complicada para você entender, então eu não vou nem me preocupar em tentar explicar. Quer dizer, você admite que não é nem de perto tão cheio de conhecimento quanto eu sou, então que direito você tem de julgar? Só para que não haja nenhum mal-entendido, no entanto, eu gostaria de lhe afirmar que ninguém se importava com a Srta. J mais do que eu, e que eu, de fato, sou uma pessoa muito boa. Isso fecha a questão.”

“Eu teria defendido a Srta. J,” disse o sexto oficial, que era notoriamente cuidadoso em não ser visto em público, “mas simplesmente não seria possível. Entenda, eu gostaria que todos livremente acreditassem em mim. Mas se eu me intrometesse todas as vezes em que alguém estivesse prestes a ser estuprado ou assassinado, então a prova seria tão clara que todos seriam forçados a acreditar em mim. Dá para imaginar alguma intervenção mais diabólica no livre arbítrio deles? É óbvio, com isso, que foi melhor para mim me afastar e deixar a Srta. J ser estuprada e assassinada. Agora todos podem livremente acreditar que há este extraodinário homem da lei por aí que os ama como se eles fossem seus próprios filhos.”

“Do que você está reclamando?” exclamou o sétimo policial quando eu me virei para ele, suas sombrancelhas levantadas em descrença áspera. “Eu acabei de salvar uma mulher de ser estuprada e assassinada semana passada! Eu tenho que saltar toda hora em que eu vejo que alguma coisa assim está prestes a acontecer? Eu diria que o fato de que mais mulheres não são estupradas e assassinadas nesta cidade é quase que um testemunho miraculoso da minha bondade.”

O oitavo policial, também, parecia frustrado. “Nada do que eu faço é bom o suficiente! Você sabe o quão pior poderia ter sido? O criminoso na verdade tinha um ferro de solda com ele quando começou, mas eu disse ‘Ah não, não enquanto eu estiver vigiando,’ e derrubei o ferro de solda dele com o meu cacetete. Claro, eu o deixei ficar com a navalha, os alicates, o cabide de arame, e o vidro de ácido, mas pense só o quão pior teria sido se ele estivesse com o ferro de solda! A Srta. J deveria agradecer sua sorte de ter alguém tão cheio de amor ali para vigiá-la.”

“Eu vou te dizer um segredo,” disse o nono policial. “Alguns momentos depois da Srta. J expirar eu a ressuscitei, e a voei para um paraíso tropical onde ela está agora experimentando uma extraordinária paz. O tormento dela é apenas uma memória distante. Tenho certeza de que você concordaria que essa é uma compensação mais do que adequada pelo sofrimento, então o fato que eu só fiquei aqui de pé assistindo sem intervir não diz nada a respeito da minha bondade.”

O décimo policial chamou nossa atenção quando revelou um segredo surpreendente sobre a Srta. J. “Eu a criei por engenharia genética a partir do nada. Eu a fiz, por isso ela é minha propriedade, e eu posso fazer o que quiser com ela. Eu a poderia estuprar e matar eu mesmo se eu me sentisse inclinado a isso, e isso não seria pior do que se eu rasgasse uma folha de papel que eu tenho. Então não existe nenhuma questão d’eu ser uma má pessoa por não tê-la ajudado.”

O décimo-primeiro policial entrou, gesticulando na direção do décimo policial “Eu o contratei para criar a Srta. J para mim, porque eu queria alguém para me amar e adorar. Mas quando eu abordei a Srta. J a respeito disso ela se virou para longe de mim, como se ela pudesse encontrar algum significado e felicidade com outro! Então eu decidi que a coisa amorosa a ser feita seria quebrar seu espírito armando para que ela fosse estuprada e assassinada por um criminoso comum, pois assim ela poderia se voltar para mim em meio a seu extraordinário sofrimento, e dessa forma cumprir o propósito para o qual ela foi criada. Bem, missão cumprida, fico feliz em dizer! Alguns segundos antes dela morrer, ela estava tão insana com terror e dor que ela de fato se convenceu de que me amava, pois ela soube que só eu poderia encerrar seu tormento. Eu nunca esquecerei o amor em seus olhos quando ela olhou para mim pela última vez, suplicando por perdão, exatamente antes do brutamontes se debruçar e cortar sua garganta. Foi tão bonito que ainda me traz lágrimas aos olhos. Agora eu só preciso ir para aquela ilha tropical para que ela possa receber seu prêmio de submissão.”

“Bem, essa é uma coincidência e tanto,” sorriu o décimo-segundo policial. “Parece que o assassino recebeu pagamento em dobro, pois eu também o contratei para realizar a matança! Porquê? Bem, era só um teste. A Srta. J e eu estávamos saindo juntos a algum tempo (sem ofensa, eu não sabia que ela era propriedade de alguém), e em uma noite maravilhosa ela finalmente disse que me amava. Então, naturalmente, eu queria ver se isso era de fato amor — quer dizer, se ela iria continuar a me adorar mesmo enquanto se afogava em uma poça de suas próprias lágrimas e sangue, comigo de pé bem em frente sem fazer nada.”

Nessa hora já tinha ficado claro para mim que qualquer dificuldade que eu poderia ter em reconciliar a presumida bondade dos policiais com seu comportamento era infundada, e que qualquer um que ficasse contra eles só poderia estar se aliando ao mal contra o bem. Afinal, qualquer um que tivesse experimentado a amizade deles da forma como eu tinha sabia que eles eram bons. A bondade era até manifestada em minha vida — eu estava arrasado antes de encontrá-los, mas agora todos me dizem como eu sou uma pessoa mudada, como eu estou mais gentil e feliz, aparentemente dono de uma calma interior. E eu conheço tantos que se sentem exatamente da mesma forma a respeito deles — tantos que, como eu, sabem em seus corações a verdade que outros tentam destruir com lógica e racionalização, com raciocínio frio e estéril. Eu agora me envergonho de ter duvidado do merecimento dos doze policiais sobre minha lealdade e meu amor.

Quando eu estava prestes a sair, o primeiro policial voltou a falar. “Antes de ir, acho que você deveria saber que enquanto estávamos ali de pé, assistindo a Srta. J ser estuprada e esfaqueada inúmeras vezes, nós estávamos sofrendo com ela, e que nós experimentamos exatamente a mesma dor que ela, ou talvez até mais.” E todos na sala, inclusive eu, balançamos a cabeça concordando.

Este texto foi traduzido para o português por Ricardo Castro, em Novembro de 2007. A versão original foi escrita entre 2000 e 2002 por Mark Vuletic, com o título “The Tale of the Twelve Officers“. O objetivo desta tradução é levar a leitores da língua portuguesa esta discussão moral e filosófica. Mais especificamente, o clássico tema conhecido como o Problema do Mal. Caso você se interesse em ler mais sobre esse assunto sugiro seguir por duas vertentes: a apologética cristã e a cética racional.


Se você gostou deste post também deve gostar de:
O poder de Deus
Duzentas formas de provar que Deus existe
Desenhos Inteligentes: criacionismo, evolucionismo

 
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s