Querer versus poder, óticas filosóficas

Quem saberá o limite do que podemos fazer? Ninguém. Só há uma forma de realmente saber: tentar. E como tentar sem querer? O antônimo de querer é estar parado, morrer. Por isso diz-se que querer é poder. Pois com querer há poder possível, mas sem querer certamente não. Quem quer pode conseguir ou falhar. Quem não quer não consegue, ponto. Mas alto-lá. De que maneira o querer e o poder são reais frente a simplesmente o jeito como as coisas seguem?

A Primazia da Consciência: Querer é Poder

Na filosofia clássica ocidental, como no racionalismo, existem duas entidades básicas, dois tijolos a partir dos quais se constrói o entendimento de todas as coisas. Esses dois blocos são: Consciência e Existência. Simplificando, existe o “eu”, e existe o “mundo”. Eu e o mundo. As duas faces do universo.

Renee Descartes, em pintura de Frans Hals

“Penso, logo existo”, disse Descartes. Com isso ele conseguiu provar o primeiro bloco básico, a Consciência. O objetivo de Descartes era, usando a lógica, deduzir todo o universo. Mas ele encontrou um problema. Ele não conseguia provar, por lógica, que o restante do mundo existia. Ou seja, depois de chegar à sua famosa primeira conclusão, Descartes não conseguiu provar que coisa alguma existia além dele mesmo. Afinal, para concluir que o mundo existe é preciso partir dos sentidos da consciência — visão, audição, etc. Mas quem prova que nossos sentidos não nos enganam, que o mundo não é apenas uma construção mental, uma alucinação criada por nossos sentidos ou por nosso cérebro? É impossível distinguir. É impossível saber que nós não somos cérebros em vidros, sonhando uma ilusão de mundo. É impossível provar que nossas experiências todas não são falsas, como as de Neo no início do filme Matrix. Qualquer prova passará pela experiência dos sentidos, e nossos sentidos podem nos enganar como nos enganam o cinema e a televisão.

Descartes, Kant, e tantos outros filósofos, profissionais ou amadores, concluíram que não temos acesso à realidade mas apenas a fenômenos mentais. Se o mundo é uma imagem mental, a Existência, ou seja, tudo o que existe, está submetida, submissa, à Consciência. Segundo esse ponto de vista há a Consciência, em primeiro lugar, e dentro da Consciência (ou a partir da Consciência) há a Existência, toda ela. Tudo o que você acredita que existe existe em sua cabeça: o teclado, o monitor, o mouse, tudo dentro de sua cabeça. As outras pessoas, o cachorro, o passarinho, tudo o mais: dentro de sua cabeça é certo que estão, fora de sua cabeça incerto.

Ora, o querer é fruto puramente de nossa Consciência, e o poder é o limite que a realidade impõe ao querer. Nesse choque entre querer (Consciência) e poder (Existência/Realidade) o primeiro deverá sempre vencer: é o mais básico, o antecedente. Assim se conclui que querer é poder: a consciência é mais forte que a existência da realidade. Veja o mito Judaico-Cristão da origem do mundo. Primeiro existiu a consciência divina, primeiro existiu o querer. Então a partir dessa consciência teve lugar a existência: Deus criou o mundo em seis dias. Fiat Lux. Da consciência brotou a existência.

A Primazia da Existência: Querer não é Poder

A escritora Ayn Rand, que com seus livros criou um sistema filosófico conhecido como objetivismo discorda da primazia da Consciência. Pelo contrário, Ayn Rand diz, a Existência tem a primazia. Ela declara como primeiro axioma, o princípio antecedente a todos: “A Existência Existe”. “A é A”, diz ela, “uma pedra é uma pedra e não uma flor; uma coisa é o que é e não uma outra coisa; não se pode ter um bolo e comê-lo também. Essa é a lei da identidade. A Existência não é um conceito etéreo, de faz-de-conta, mas uma base firme para a epistemologia. A lei da não-contradição então é a forma epistemológica da lei da identidade: você não pode conhecer A sendo A e ao mesmo tempo conhecer A como sendo não-A. Duas afirmações mutuamente exclusivas não podem ser ambas verdadeiras ao mesmo tempo… Chegar a uma contradição é abdicar e sua própria mente, e fugir do reino da realidade.” (vide Atlas Shrugged.)

Foto de Ayn Rand

Segundo Ayn Rand a Existência e a Consciência são coordenadas, de tal forma que a existência, ou a realidade, é sempre o padrão pelo qual a validade de um julgamento da consciência é medido. Parece trivial, mas é preciso notar que daí se conclui que querer não é poder. Pois significa que o poder tem limites, o querer (ou consciência) se choca contra a realidade e a realidade (ou existência) tem primazia. Ilustrando, um selvagem anda pela encosta de uma montanha quando subitamente acontece uma gigantesca explosão e um vulcão entra em erupção. Ele nesse momento possui duas opções: reconhecer a realidade e fugir, ou se ajoelhar, fazer pensamento positivo, rezar, mentalizar que o problema não existe. De acordo com Ayn Rand a segunda atitude é um erro grave.

O criticismo da subjetividade cartesiana teve um expoente muito antes de Ayn Rand: o filósofo David Hume, que foi contemporâneo de Descartes. Humes argumentava que existiam apenas dois tipos de verdade revelada. Havia as “verdades da razão”, como 2+2=4. E havia as “constatações de fato”, como “a gralha no aviário do zoológico de Copenhagen é negra”. Questões que não se encaixavam nesses dois tipos (como “Será que existe um mundo externo ao ser?”) são irrespondíveis e sem significado, segundo Hume.

Não-dualidade: nem querer nem poder

A filosofia oriental, em especial o taoismo, reconhece o princípio da dualidade na natureza, dualidade básica do ying e do yang. A dualidade Existência x Consciência é uma de muitas. Dia e noite, masculino e feminino, prazer e dor. Cada um precisa do outro para ser. Mas nas religiões orientais há um estágio mais avançado de consciência a ser alcançado, além da dualidade do mundo. É o estado da iluminação ou transcendência, chamado Satori, pelos japoneses, Nirvana, pelos indianos. As culturas taoista, zen, budista, hinduista, todas elas mostram esse caminho de elevação da consciência por escapar da dualidade.

Nessa linha pode-se tentar compreender o mundo, o universo, como um só, inteiro e completo, e sem divisão (dualidade) entre o “eu” e o “mundo”. Ou seja, pode-se compreender que Existência e Consciência são na verdade uma coisa só.

Foto de Raymond Smullyan

O admirável escritor Raymond Smullyan, que além grande matemático e lógico se mostrou um grande estudioso de filosofia e religiões orientais, escreveu um ensaio com o título “Deixando as coisas seguirem seu próprio caminho” (em “The Tao is Silent“, não publicado em português). Nesse texto ele diz que há dois tipos de condutas pessoais no mundo. Os “quietistas” acreditam em “deixar as coisas seguirem seu próprio caminho, não interferir, não tentar ‘melhorar’ o mundo, não impor sua própria vontade na natureza, simplesmente aceitar as coisas à medida que elas chegam”. Os “ativistas”, ao contrário, “acreditam que o quietismo é o pior caminho possível, e responsável pela maior parte dos males do mundo” e que “depende de nós evitar que as coisas ruins do mundo aconteçam, a última coisa que devemos fazer é deixar as coisas seguirem o seu caminho.”

Ao fim de seu ensaio Smullyan conclui “eu vejo toda essa controvérsia entre o quietista e o ativista uma tola dualidade.” E ele continua explicando “eu tomo o ponto de vista de que a pessoa é parte da natureza (ou do universo, ou do cosmo, o que seja) ao invés de separada. Então suponha que eu tenha um desejo ardente de fazer certas mudanças no mundo. A não ser que eu positivamente e ativamente reprima esse desejo, eu irei em frente e farei essas mudanças. Mas não será o meu desejo de mudar, e portanto minhas mudanças, parte do jeito como as coisas seguem? Por outro lado se eu inibo meu desejo de fazer mudanças, e portanto não mudo nada, não é a minha inibição — e consequente inação — também parte do jeito como as coisas seguem? Como então eu posso não deixar as coisas seguirem seu próprio caminho, se o caminho que eu vou é parte do caminho que as coisas seguem?”


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10 respostas em “Querer versus poder, óticas filosóficas

  1. E no fim das contas, será que tudo se move pela fé? Ou melhor, a realidade se faz através da nossa consciência? Era isso o que o messias tentava explicar? Que a matrix é a base de toda a vida virtual que nos é “imposta” ou presenteada, seja lá como for? Essa é uma questão muito mais complexa do que somos capazes de achar… Como o é a ligação entre o querer e o poder, se é que existe ligação entre eles. Eu não acredito no poder, propriamente dito, do ‘querer’. Mas acredito no poder da consciência positiva, da paz de espírito e da alma limpa. Não que se possa ganhar um carro se pensar nessa possibilidade durante o dia inteiro. Mas que se melhora a saúde corporal e espiritual quando se tem uma consciência livre de impurezas, isso sim, é verdade.

  2. Emanuela, vc parece intuir mais fortemente a primeira visão de mundo, de que o mundo vem de nossa consciência. Creio que a maior parte das pessoas no mundo ocidental tem esse mesmo viés. Mas como vc mesma lembrou, a questão é muito complexa.

    Quando a incerteza é grande, quando a questão é muito complexa e quando necessitamos fortemente de uma referência, o caminho é criar um mito: ou seja, uma história ou um modelo razoavelmente simples, mas que explica e se encaixa, portanto é útil independente de se é verdadeiro ou falso.

    Em 6,000 anos de história humana escrita os modelos/mitos básicos que foram criados para responder a questão da existência/consciência são, essencialmente, os três acima. A questão é complexa. Devemos ser capazes de entender os três, contemplá-los e tentar contemplar o mundo com eles, mesmo sabendo que são incompatíveis entre si. Há utilidade nos três pontos de vista: seja melhorando a saúde, seja encarando os infortúnios, seja tomando uma decisão.

    Disse o escritor Scott Fitzgerald que o “teste de uma inteligência de primeira classe é abilidade de acomodar ao mesmo tempo duas idéias opostas em sua mente, e ainda reter a capacidade de funcionar.” Quantos conseguem passar nesse teste?

  3. Pingback: Doze policiais, um assassinato « simplesmente

  4. Uma e Outra coisa
    O Querer é inerente à alma do homem, relacionado aos seus sonhos; às suas aspirações; e/ou às suas necessidades, mas para que o Querer se cumpra é necessário o Poder para concretizá-lo, que precisa ser buscado numa esfera superior à limitação humana.
    Logo, o Querer está na tua mão, mas o Poder está na mão do teu Deus.

    • Uma e outra coisa. Duas coisas diferentes, porém ligadas. Como um arremesso e uma cesta.
      Pense bem sobre isso: sem poder no homem não há querer no homem. Se deus é onipotente também é ele onipotente sobre todo o querer do homem, e portanto não há querer nenhum além do de deus. Por outro lado, se o querer está no homem e deus não tem querer (o que bem deve ser verdade) então não há poder em deus: pois nada pode quem nada quer. Nem mesmo deus pode alguma coisa se nada quiser. O nada querer é um estado pétreo.
      Sobre isso escrevi este artigo.

  5. Senhores (as),

    nem tanto ao céu, nem tanto à Terra. O fato de não conhecermos completamente a realidade não siguinifica que ela é complexa. Todas as criações de deus tem um principio simples.
    Portanto, fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, e como Deus também É PODER, também somos dotados de certa medida de poder. E ele permite, e talvez até deseje, que usemos esse poder para transformar a realidade.
    O poder de Deus é ENERGIA, ele não cria coisas ou age apenas com pensamento, ele pensa, deseja e usa sua energia para realizar seus propósitos.
    Não obstante, pensamento também é energia, portanto não sabemos até que ponto, em Deus – que, aliás, tem o nome de Jeová – a energia criadora está dissociada do pensamento.
    Todavia, o desejo de voar levou o homem ao espaço, por exemplo. O caminho, portanto, que o homem usa para utilizar o poder recebido por Deus é conhecimento e trabalho. E com este poder nós, ao longo da historia, criamos o mundo em que vivemos agora.
    Mas, por varias vezes, eu já desejei muito intensamente coisas que simplesmente, como diz Rhonda Byrne, o Universo, ou seja lá o que for, conspirou com pessoas, circunstancias e acontecimentos e fez aparecer na minha frente exatamente como eu queria. Talvez se os senhores ficarem atentos percebam estas evidencias.
    Conseqüentemente é claro que o que move a realidade – de um modo ou de outro, ou de ambos os modos – é o pensamento impulsionado pelo desejo.
    E o único fato pelo qual muitos de nós reluta em acreditar nisso é por que é uma idéia simples. Por que para nos latinos algo só é verdadeiramente bom quando é complexo e mirabolante.
    Talvez nós tenhamos dificuldade em perceber que a prova da realidade de um fato é a sua funcionalidade. Tudo o que não funciona não passa de teoria. E teorias só são necessárias e suficientes, por outro lado, apenas até descobrirmos como as coisas, realmente, funcionam. Não podemos tomar uma suposição como verdadeira apenas porque nos identificamos com ela.
    Toda complexidade vaga no mar das suposições e termina em nada. Quando trabalhamos com suposições, portanto, não podemos ser dogmáticos. Elas são apenas cominhos para se chegar até a realidade absoluta. O que , invariavelmente, sempre acaba acontecendo, porque todas as verdades são reveladas ao homem pela – segundo também dito pela nossa Rhonda Byrne, e eu acredito – inteligência infinita.
    Qualquer duvida ou pergunta que tenhamos sempre será respondida. Neste sentido, as velhas teorias e suposições são, naturalmente, essenciais. Por exemplo, não foi assim que, das primeiras teorias filosóficas sobre o átomo se chegou até o conhecimento da matéria que temos hoje. Este processo às vezes leva séculos. Portanto a busca da verdade é um caminho que exige paciência e humildade.
    Alias, pulando da água para o vinho, Deus não deseja que este mundo cheio de sofrimentos, doenças, injustiças e maldade continue existindo para sempre; e ele promete destruir as pessoas más e transformar a Terra em um paraíso onde os bons viverão felizes para sempre sem sofrimento nem morte. Salmos 37: 9,11,29 ; Apocalipse 21: 3,4
    Se este, prezados senhores, é o desejo do Senhor Deus Jeová, ele o fará basicamente por dois motivos.
    1 – Ele não pode mentir.
    2 – Como os Senhores bem já vêm discutindo, ele deseja, e tem poder para isso.
    Se ele PÔDE criar tudo isso, por que não PODERIA também transformar para melhor?
    Se os senhores desejarem mais informações sobre isso por favor procurem as Testemunhas de Jeová.
    Isto tambem senhores, por ser tao simples, nao nôs parece absurdo ou mirabolante? no passado eu já achei isso quando lí a Biblia.

    • Oi amigo, seria possível de uma mesma fonte jorrar água doce e água salgada? Como crêr parcialmente em algo que é inteiro?

  6. Pessoas, … (por uma momento tive a “ilusão” que existe algo que posso chamar de pessoa) … não cabe na realidade pensamentos como esse, a realidade é maior que qualquer consciência até que se entenda a “Fé” (se esta fizer parte desta prisão chamada consciência, no que particularmente eu não acredito), no mais eu acredito na supremacia da realidade e que por ela a nossa consciência vai sendo moldada …

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