Ilustrando os virus, hoaxes e memes

Estes três replicantes do título são primos próximos, mas não são igualmente famosos. Os virus de computador são disparado os mais conhecidos. Faz muito tempo que entraram na cultura popular. Os vírus tinham, ainda têm, aquela aura maligna e assustadora de algo terrível que pode acontecer a qualquer instante. Muitas pessoas ouviram falar sobre virus de computador antes mesmo de aprender a usar seu primeiro computador. “Como eu faço para fechar a janela? Qual botão do mouse é para eu clicar?” em geral vinha seguido de “Mas será que eu não posso pegar um vírus?” Os vírus de computador eram algo tão misterioso que se você dissesse que era preciso usar luvas para usar um teclado era capaz das pessoas usarem.

Creio que o fascínio com os virus de computador vem daquela velha desconfiança de que um dia os computadores podem adquirir vida e nos sobrepujar seres humanos. Essa desconfiança é antiga, bem mais antiga que os computadores pessoais. Estava ali na cultura popular desde que os “cérebros eletrônicos” entraram em cena. Lembram do HAL 9000 de “2001, uma Odisséia no Espaço“? Esse filme de 1968 é considerado por muitos um dos melhores já feitos. HAL, o nome do computador, foi uma brincadeira sorrateira dos autores: pegue a letra seguinte no alfabeto para cada uma destas “H”, “A”, “L” para ver porquê. O mesmo medo da vida cibernética volta em filmes como “Jogos de Guerra”, “Exterminador do Futuro”, “Eu, Robô”. Se o pior acontecer um dia, certamente alguém vai falar “eu te disse, né?”

Penso no dia em que saiu na televisão pela primeira vez, provavelmente no Jornal Nacional, que os vírus de computador estavam atacando em diversos países. Imagino um Seu Oliveira comentando com a esposa “Olha só, Zélia, eles já têm até vírus, daqui a pouco vão infectar todo o mundo.” Sim, pânico: os computadores estão vivos como nós, pegam viroses como nós. Daqui a pouco é capaz de tocarem a campainha para vir jantar conosco, horríveis criaturas!

Mas não, espera um pouco, passamos dessa fase. Nós todos sabemos exatamente o que é um vírus de computador. Podemos rir se alguém nos pedir para usar luvas no teclado. Não temos medo de disparar coisas terríveis cada vez que abrimos um arquivo no micro. Não é?

Os Vírus de Computador

Um vírus de computador é um programa de computador que alguém programou para rodar sem você perceber e, ao rodar, fazer cópias de si mesmo para rodar em outros computadores. Opcionalmente ele pode também realizar alguma atividade destrutiva ou engraçadinha, além de se propagar. Toda vez que você inicia o Windows uma série de programas se inicia junto com o Windows. Olhe para a parte de baixo, a direita, da tela de seu micro (ao lado do relógio). Ali tem alguns ícones de programas que estão rodando desde que seu micro foi iniciado. O truque do vírus é ser rodado inadvertidamente por você e se copiar para a pasta dos programas que rodam automaticamente ao iniciar o micro. Quando ele tem sucesso diz-se que o micro foi ‘infectado’.

Os primeiros vírus que eu encontrei (ainda na época do sistema operacional DOS, ou seja, antes do Windows) funcionavam assim. Eles ao rodar se copiavam para a seção de boot do disco rígido do computador (de onde sempre seria rodado). Enquanto ele rodasse todo disquete que fosse colocado naquele micro receberia uma cópia, em seu setor de boot, do mesmo vírus. Ao se inserir o disquete de um micro contaminado em um micro não contaminado o programa era rodado e, ao rodar, contaminava o novo micro.

Vê-se que o único papel dos seres humanos neste caso é o de colocar e tirar disquetes do micro, eventualmente levando disquetes de um micro para outro. Ou seja, os seres humanos são polinizadores úteis, mas não são manipulados pelo virus: apenas seguem com sua vida normal. Quem replica o vírus é o computador sozinho. Apesar disso a tendência é que todos os micros sejam contaminados, se uma contra-medida não surge.

Uma espécie de virus mais interessante do que esses virus originais é aquela que usa os seres humanos para se propagar, além do computador. Seu expoente mais célebre foi um vírus originado das Filipinas chamado “LoveBug” que no ano 2000 infectou 70% a 80% dos computadores do mundo, causando danos terríveis e parando o tráfego de emails de inúmeras empresas e órgãos governamentais. A forma como ele se propagava era por email. Alguém recebia um email com o irresistível assunto “Eu te amo” (“I Love You”). Ao abrir o email e clicar no anexo o usuário contaminava seu computador saudável. A partir daí o programa “LoveBug” usava seu programa de email para enviar uma mensagem idêntica (com o vírus e o título provocante) para toda a sua agenda de endereços de email. Ao receber sua mensagem, a história se repetia na outra ponta. Um efeito explosivo .

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Veja que o ser humano agora não é mais agente passivo — o comportamento humano é provocado pelo tema do virus de email (quem não queria ler uma carta de amor endereçada a si mesmo?), e quase tão automático quanto o do computador. Nesse caso a mecânica não é determinística, mas probabilística: seres humanos podem ser previsíveis ao mesmo tempo em que são inconstantes.

Os Hoaxes

Você se lembra de quando recebeu um e-mail dizendo que a Microsoft estava testando seu sistema operacional e que iria remunerar você regiamente para que reenviasse uma mensagem de email? Muitas pessoas, inclusive eu, receberam de vários conhecidos essa mensagem. E aquela outra vez que te passaram um email dizendo sobre um golpe chamado “Boa Noite Cinderela“, em que alguém era seduzido na noitada, colocavam drogas na bebida, e depois acordava em uma banheira cheia de gelo e sem um dos rins? Lembra? E aquela petição para salvar a vida daquela criança doente? E a outra para você não digitar um determinado número no seu telefone? São tantas versões, mas são todos casos de hoaxes.

Vamos lá então. Um hoax é uma história falsa, alarmista e de alguma forma fascinante, que vem por email e que provoca o leitor a passar adiante. Muitas vezes coloca essa provocação bem explícita (“fulano não repassou e uma coisa terrível aconteceu a ele depois de três dias”). Muitas vezes diz coisas absolutamente absurdas (a Microsoft pagar alguém 200 dólares para reencaminhar um email??). Mas no geral conta com alguns pontos. Primeiro, no estilo da aposta de Pascal, que a pessoa pense “melhor enviar não sendo verdade do que não enviar sendo verdade”. Ela assim transfere o julgamento da verdade para o próximo recipiente. Segundo, que as pessoas têm muitos emails para ler e pouco tempo para refletir o que fazer com uma mensagem que pede para ser re-encaminhada. Terceiro, que a maior parte das pessoas de fato é ignorante ou inocente (escolha o adjetivo).

 

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O interessante é que quando você pára para entender, o hoax é muitíssimo parecido com um vírus. Não parece, pois não é um programa de computador. Mas exatamente como um vírus é uma carga morta, inútil, cujo único propósito é se reproduzir, se perpetuar, utilizando neste caso ao invés do computador um incauto usuário como replicador.

Memes e a nova ciência da memética

Agora retire o computador totalmente da história. Será que ainda há replicadores semelhantes sem email, PCs, disquetes? Com certeza, e dessa certeza vem a sacada do inglês Richard Dawkins (pela primeira vez mencionada no excepcional livro “O Gene Egoísta“, ou “The Selfish Gene“). Ele propôs um termo para designar a ampla classe de idéias ou construções mentais que são propagadas, reproduzidas, de ser humano para ser humano: o Meme. Esse termo vem da analogia com o outro grande replicador da natureza, o Gene (também se pronuncia da mesma forma). O Meme é um pedacinho de memória que se reproduz de uma cabeça para a outra. Pode tomar muitas formas. Uma boa piada. Uma melodia assoviada. Um jeito de acender uma fogueira. Uma forma de caçar. Um ritual de adoração ao sol. Mesmo as palavras, pronúncia e significado, são memes.

Ilustração de Meme

O conceito dos memes é provocador porque inverte o ponto de vista tradicional. Normalmente se imagina que os homens têm idéias. Invertendo a ótica chega-se à visão de que idéias têm homens (ou mulheres). Ou seja, que as idéias se replicam na mente das pessoas, se multiplicam, evoluem, se perpetuam ou se extinguem de forma semelhante ao que ocorre com as formas de vida na natureza. Sobrevivência do meme mais adequado significa perpetuação da idéia mais capaz de tocar os pontos certos da psique humana. O que tem em comum o meme da dança da Macarena com um meme como a crença na democracia? Em um determinado nível ambos são satisfatórios para quem os carrega. E de alguma forma ambos causam você a propagá-los, ensiná-los a outros.

Você se lembra de quando ouviu falar no conceito de “meme” pela primeira vez? Foi hoje, neste artigo? Se não, quando e com quem foi? Pois bem, se você depois de ler este artigo decidir contar para alguém o conceito do meme você estará propagando um meme: o meme do conceito do meme. A reprodução de um meme é tão importante para que ele permaneça existente que alguns memes complexos compelem seu portador a espalha-lo, da mesma forma que o vírus da raiva faz com que um cachorro salive e morda outros animais. As religiões modernas, contemporâneas são excelentes exemplos disso, cada uma a sua maneira.

Faça isso pelo meme do meme, envie o link deste artigo para quem você conhece.
https://simplesmente.com/2007/11/20/o-que-sao-virus-hoaxes-e-memes/
:mrgreen:

A memética é uma ciência nascente, uma ciência a ser construída. Tem um campo muito grande pela frente: estudar a propagação das idéias, a razão pela qual determinadas idéias (ou conjuntos de idéias, pois idéias podem se apoiar mutuamente, simbioticamente) sobrevivem e outras definham. Parece-me um campo que vale a pena estudar.

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2 respostas em “Ilustrando os virus, hoaxes e memes

  1. Para os interessados em Antivirus (como o Carlos Eduardo acima). Os melhores antivirus grátis são o Avast, o Avira e o AVG. Clique nos nomes para baixá-lo. Deles prefiro o Avast — usei durante muitos anos e recomendo — mas o Avira recentemente tirou primeiro lugar em um teste. Os melhores antivirus pagos são geralmente considerados o Kaspersky Antivirus (KAV) e o NOD32, da Eset. Atualmente, uso o NOD32 em minhas máquinas — excelente.

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