A probabilidade da Vida

Teólogos e cientistas se intimidam, se alvoroçam e se pavoneiam com uma questão simples. O que é a vida ? Os que se perdem com o significado tentam uma abordagem equivocada, considerar a vida um objeto ou uma propriedade de um objeto. Isso é um beco sem saída. Considere a vida um processo e com isso alcançaremos uma definição simples sobre a qual poderemos concordar. A probabilidade do processo da vida é enorme, dado que eu e você existimos. Mas foi fruto de eventos que sob a ótica de minha experiência, ou da sua, são extremamente improváveis.

O começo da vida

A vida erupcionou no planeta terra 4,5 bilhões de anos atrás, mais ou menos. Como um vento que de repente, raramente, faz um redemoinho, em um dado momento um processo se iniciou. Um movimento como o de um dominózinho, pequeno, que tomba e bate em um outro, pequeno, que tomba e bate em um outro, começou uma onda. A onda da vida, no começo, envolvia moléculas orgânicas, pequenas, que tombavam e batiam e formavam outras como elas, pequenas. Essas não tinham qualquer semelhança com o que hoje entendemos em nosso mundo macroscópico como vida. Não tinham olhos, não se moviam, apenas flutuavam em algum caldo de substâncias que lá havia. Mas por chance ou acaso em algum momento a dança de algumas moléculas adquiriu ritmo, e deixou de ser aleatória. Esse momento, o momento do início da vida, foi quando elas começaram a se reproduzir e usaram cada tijolinho orgânico que lhes servia para montar cópias de si mesmas, entupiram o mundo até não mais poder.

O início da vida é de “pique pega”. No começo as moléculas vivas consumiam moléculas não vivas. As primas gêmeas disputavam as mesmas moléculas para o lanche até que essas escassearam. Então em algum momento ocorreu uma falha na reprodução e uma molécula viva diferente descendeu daquelas iguaizinhas. E começou a consumir outras moléculas vivas: uma concorrrência frontal, não lateral. Quando uma molécula viva dessas novas pegava uma outra molécula viva qualquer, das duas uma, ou ela a consumia para se manter viva ou a fazia viva igual a ela. Como naqueles filmes de vampiro antigos, quando a donzela é mordida vira refeição ou vira a vampirella. Muito tempo passará até a vida evoluir para organismos complexos, que usam telefones celulares, comem frango assado e vão a motéis para se reproduzir.

Mas a vida enquanto existe avança. Segue, como se fosse uma onda no mar ou um incêndio na floresta. Cada geração leva à próxima, e de cada geração apenas os melhores sobrevivem. A sombra Malthusiana nunca a abandona: o potencial de reprodução é muito mais alto do que o potencial de sustento pelo meio ambiente. Por isso uma multidão disputa o direito de existir.

Do caos original regras simples fazem emergir uma ordem surpreendente. Com o jogo de Conway podemos ver essa idéia: brinque com ele nesta página (dica, bagunce o quadro com o mouse depois clique no botão start.)

O processo da vida

Há duas óticas distintas para ver o processo da vida (que é o mesmo). A visão estática, a posteriori, e a visão dinâmica, a priori. O diagrama abaixo mostra o processo da vida, visão estática ou a posteriori. Note que nessa ótica a posteriori parece que havia uma ordem necessária, parece que cada geração se segue a outra sem qualquer perda, seleção, conflito — quem existe existe, e veio de quem existiu. Pense sobre isso: cada um de seus antepassados se posiciona numa corrente como a abaixo, corrente em que você está como último (ou penúltimo) elo. Isso significa que todos os seus antepassados do sexo masculino, todos, sem exceção, chegaram a idade adulta e encontraram uma mulher com a qual reproduziram. Significa também que todas as suas antepassadas do sexo feminino, todas, sem exceção, chegaram a idade adulta, engravidaram e conseguiram ter um filho ao fim de 9 meses. Não importa quanto para trás você vá na sua árvore genealógica: 100 anos, 1,000 anos ou 100,000 anos. Todos eles tiveram a sorte de fazer sexo e se reproduzir — você é prova.

A visão dinâmica do processo da vida, por outro lado, é mais clara sobre o efeito disputa. Pois a priori não se sabe quem sobrevive, quem se reproduz, quem morre. A visão a priori mostra todas as reproduções, não apenas as que posteriormente se mantiveram, não se extinguiram. O diagrama abaixo mostra a visão a priori. As bolas brancas são os indivíduos (moléculas básicas de vida ou animais modernos, não importa) que chegam a idade adulta e se reproduzem. As bolas verdes são os indivíduos que morrem sem se reproduzir. Veja que a mortalidade pode ser muito alta: em duas gerações, n e n+1, há 4 viáveis (reprodutores) para 8 inviáveis (becos sem saída).

Para praticamente todas as formas de vida existentes existe proporção pelo menos tão grande quanto a mostrada acima de indivíduos não-reprodutores. A prova disso é matemática. Vejamos. Uma ninhada de coelhos é de cerca de 8 coelhinhos (4 casais), quer dizer, a cada ciclo reprodutivo 1 casal de coelhos gera 4 casais de coelhos. As gerações vão se multiplicando assim: 4, 16, 64, 256, etc… em 10 gerações serão 268 milhões de casais de coelhos. Como uma coelha em geral tem cerca de 4 gestações por ano em 10 anos (40 gestações) um casal de coelhos poderá gerar espantosos 1,208,925,819,614,629,174,706,176 casais de coelhos. Traduzindo, são cerca de 2.4 trilhões de trilhões de coelhos. Eu sei que o número parece absurdamente alto, mas digite 4 elevado a 40 em uma calculadora e verá o resultado. Como não existem tantos coelhos no planeta é óbvio que a maioria deles é “bolinha verde”, ou seja não chega a idade adulta, não se reproduz. Se o raciocínio vale para coelhos vale mais ainda para animais que se reproduzem a taxas mais altas, como moscas, peixes ou micróbios. Apenas poucos eleitos sobreviverão: por definição os mais aptos.

Grandes números: População possível e população real

A proporção entre a população teoricamente possível e a população real mostra o quão selecionado um grupo foi. Mostra o quão grande foi o cardápio de possíveis mutações entre as quais o ambiente selecionou seus espécimes favoritos. Vamos novamente recorrer a matemática para essa brincadeira. Segundo a Bíblia Deus criou o mundo e o homem a cerca de 6,000 anos atrás. Como cada geração humana dura cerca de 30 anos podemos calcular que houve 200 gerações entre Adão e Eva e eu ou você.

Pois bem, um casal de seres humanos católicos (ou seja, sem métodos anti-concepcionais) costuma ter mais de 12 filhos. No interior do Brasil era frequente 16 ou 18 filhos. A maioria morria criança, mas eram filhos com iguais chances de vida. Então, sejam 8 filhos por casal na média, por 200 gerações. Usando a calculadora com nosso expoente elevado a 200 o numero resultante é cerca de 5 com 120 zeros atrás. Como a população mundial é de 6 bilhões de pessoas (6 com 9 zeros atrás) a proporção entre pessoas que existem hoje e pessoas que poderiam existir mas foram eliminadas da história é de:

Lembre-se, aquele 1 (um) ali em cima é você! Um para 10^110 (dez elevado a cento e dez)! Para efeito de comparação a relação entre um grão de areia e o planeta terra é de 1 para 10^29. A relação entre um átomo e o planeta é de 1 para 10^50. A relação entre um átomo e o sol é de 1 para 10^56. Estamos ainda longe. Existem cerca de 500 bilhões de estrelas na via láctea. E existem cerca de 2,000 bilhões de galáxias no universo. Portanto existem cerca de 10^24 (trilhões de bilhões) de estrelas no universo. Então ao comparar um singelo átomo com todas as estrelas do universo teríamos a relação de 1 para 10^80. Continuamos muito longe da proporção entre a população humana que existe e e a população humana que poderia ter existido. Paro por aqui.

E olhe que a proporção não foi justa, pois a versão bíblica subestima o denominador. Segundo os arqueólogos a raça humana tem entre 100 mil e 150 mil anos, pelo menos. O cálculo com esse intervalo maior de tempo seria outro: ao invés de 10 com 110 zeros seria 10 com 2,400 zeros atrás. Ou seja, para cada ser humano vivo foram “testados e rejeitados” 10^2400 (10 elevado a dois mil e quatrocentos) seres humanos potenciais. E não custa lembrar que antes dos 150 mil anos de espécie humana a vida no planeta terra teve 4,5 bilhões de anos (30 mil vezes mais tempo) trabalhando com formas de vida que tinham proles mais vastas e gerações mais curtas que nós humanos.

Destaco esses números espantosamente altos por uma razão simples: para mostrar que nossa intuição sobre o que é provável e improvável não serve para avaliar escalas planetárias, proporções geométricas, séries exponenciais e intervalos de milhares, milhões de anos. Imagine um evento que só ocorra uma única vez a cada cem mil anos. A probabilidade de um ser humano ver esse evento em sua vida é de uma em mil. Ou seja, o evento é quase tão improvável quanto impossível. Agora imagine um ser que vivesse 1 bilhão de anos: ele veria ao longo de sua vida esse mesmo evento 10 mil vezes e o acharia não só provável como corriqueiro. A probabilidade não mudou, mas a percepção de probabilidade é radicalmente diferente.

O surgimento espontâneo da vida é algo que nossa intuição faz sentir como improvável. A evolução da vida, de um protozoário a um ornintorrinco, também percebemos como improvável. Mas vale lembrar a célebre frase do detetive favorito de todos os tempos: “Quando eliminamos o impossível, Watson, o que resta, por mais improvável que seja, é a verdade.”

P.S. Se não me fiz claro por favor esqueça todo o escrito e veja o vídeo abaixo.


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3 respostas em “A probabilidade da Vida

  1. Muito inteligente meu nobre! Que bom alguém que gosta de ler e compartilhar, meu nobre, hoje sou evangélico e passei a ter a Biblia como a única fonte inerrante existente em nosso planeta no que diz respeito ao Homem e ao Mundo, fui convencido por 3 motivos:
    1 – Características de DEUS no Homem (criado á sua imagem e semelhança)
    2 – As profecias e os seus cumprimentos, cito aqui a profecia de Isaias 53 a cerca de 760-765 anos antes de Cristo e que se cumpriu em Jesus de Nazaré
    3 – O conhecimento implacável da natureza humana exposto em suas páginas
    Esses motivos me levaram a crêr por definitivo na Biblia, é bem certo que a desobediência maculou parte das características que possuimos de DEUS, mas algumas ainda estão intactas como a Consciência Moral, o Poder de Decidir que vai do desejo mais ínfimo ao decidir sobre existir ou extinguir a própria vida, dentre outras características …
    Acredito que se todos os povos dessem a Biblia o crédito que ela merece e a tivesse como um manual de conduta seríamos melhores em tudo.

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