Externalidades de rede, mercados explosivos

Historicamente a atratividade de um produto ou serviço é função de características intrínsecas ao mesmo. Por exemplo, quanto vale um cavalo ? Olhe os dentes, julgue a idade, veja se está bem alimentado, os pêlos brilhantes, pergunte sobre sua ascendência equestre — se for um cavalo de corrida pegue seus resultados nos últimos campeonatos. O valor do cavalo está associado ao que ele é, intrinsicamente. Da mesma forma, quanto vale uma jóia de ouro ? Você como joalheiro verifica qual a pureza do ouro, ou quantos quilates, qual o peso da peça, se tem alguma pedra valiosa incrustada, e ainda pode avaliar a qualidade do artesanato, desenho e execução, que a molda. Tudo está ali, embutido na jóia, intrínseco a ela. O conceito de externalidade de rede contrasta com essa intuição antiga de onde reside o valor, e é essencial para entender o mundo moderno, especialmente o que gira em torno da internet. Um objeto possui externalidade de rede quando seu valor é fortemente relacionado a aspectos externos a ele, mais especificamente ao tamanho do conjunto (ou rede) de objetos, idênticos ou complementares, que se relaciona com ele. Um dos exemplos mais simples de explicar é o da máquina de fax.

Logo que surgiu o fax ele já fazia basicamente o que faz hoje, ou seja enviar documentos por uma linha telefônica. No entanto ele era um apetrecho menos valioso, pois para enviar um fax é preciso de um outro na ponta que recebe, e no começo havia poucos. Imagine que você troque documentos regularmente com 100 empresas e que todas têm máquina de fax. Uma máquina de fax em seu escritório é algo muito valioso: permite enviar documentos a todos os seus parceiros. Se por outro lado só 50, 40, 30 de seus 100 parceiros possui fax, você terá que tomar uma decisão um pouco mais difícil. Se nenhuma outra empresa tiver uma máquina de fax, nem uminha das 100, quando vierem te vender uma máquina de fax você dirá: mas essa geringonça não vale nada para mim! Evidente que o primeiro comprador de um aparelho de fax comprou um par, e pensou, se ligar A com B e B com A já estará bem pago. Quando a rede foi crescendo, e suas opções de destinatário passaram a incluir C, D, E, F, G, etc. foi como se estivessem lhe dando um bônus.

A externalidade de rede é interessante, entre outras coisas porque abre uma possibilidade explosiva. O que é uma explosão ? Uma explosão é uma reação auto-alimentada, com velocidade crescente e não controlada. Por exemplo, em uma explosão atômica um átomo de urânio U-235 absorve um neutron e se parte em dois, liberando energia (calor e raios gama) e mais neutrons. Esses neutrons liberados vão atingir mais átomos de urânio, que vão fazer a mesma coisa e em alguns picosegundos (quer dizer, milésimo de milésimo de mílésimo de milésimo de segundos) todos os átomos de urânio se partirão e liberarão sua colossal energia: bum! uma grande explosão (quer saber mais?).

Destacando o aspecto exponencial de uma explosão como essa: vemos na figura acima que um átomo fez quebrar dois átomos, que por sua vez quebraram quatro átomos. Essa seqüência é geométrica: 1, 2, 4, 8, 16, 32… Poucos já pararam para apreciar o qüão rápido tal seqüência cresce em direção ao infinito. Imagine que ocorra uma duplicação a cada segundo. Depois de 4 segundos são 16 átomos. Depois de 8 segundos, 256. Depois de 15 segundos, 32 mil. Depois de 30 segundos alcançou-se o fabuloso número de um bilhão de átomos partidos! Mas isso não é nada, pois em mais 30 segundos o número chegará a um sextilhão (ou um bilhão de bilhões). Troque segundos por picosegundos e pode-se começar a intuir o que significa “explosão”.

Como a externalidade de rede pode criar uma explosão ?

Na economia clássica a quantidade de um produto que será vendida, e seu preço, é dada pela interseção entre duas curvas, a de oferta e de demanda. Para ficar claro veja o gráfico abaixo. Note que a medida que o preço sobe, no eixo horizontal, menos pessoas estarão interessadas em comprar o objeto e por isso a curva vermelha decresce. Da mesma forma, quanto mais alto o preço do mercado maior interesse terão os produtores em oferecer uma determinada quantidade, por isso a curva verde sobe. Tudo muito bem, muito básico em termos de economia.

OfertaDemanda

O que fica mais difícil de ilustrar nesse gráfico é que em alguns produtos (como as máquinas de fax) a curva de demanda depende, além do preço, da quantidade já vendida. Ou seja, quando há externalidade de rede a quantidade demandada hoje é função da quantidade demandada ontem. Sob determinadas condições essa demanda pode se tornar explosiva, ou seja, pode crescer alimentada pelo seu próprio crescimento. Quais condições, exatamente ? Veja o gráfico abaixo que relaciona a Quantidade Existente (Qe) com a Quantidade Demandada (Qd).

Externalidade de rede

A mecânica que o gráfico ilustra, usando o exemplo dos fax, é a seguinte. Duas pessoas compram máquinas de fax, ninguém mais se interessa. Mas dado que se pode mandar fax para essas duas pessoas, agora mais duas estão interessadas em comprar a máquina. Quer dizer, dado que 2 máquinas existem a demanda é 4 (as 2 existentes e mais duas). Assim que 4 pessoas têm as máquinas outras 4 podem dizer, agora me interessa, pois posso enviar fax para 4 pessoas. Com isso agora são 8. No gráfico, Qe=4, Qd=8. O movimento segue num crescente enquanto uma determinada quantidade de máquinas existentes (Qe) leva a uma demanda ainda maior (Qd>Qe).

Para cada quantidade existente de máquinas, um certo número será demandado, e plotando isso num gráfico podemos observar uma curva. Essa curva depende, naturalmente, da curva de demanda e do preço da oferta, conforme o gráfico anterior. Porém dado um preço e dado o comportamento dos compradores de um mercado ela é uma característica do produto. Se essa curva tiver uma trajetória acima da reta x=y, ou seja, da diagonal pontilhada no gráfico acima, o crescimento do mercado será explosivo. Ou seja, a quantidade vendida crescerá sem ser limitada pela demanda, potencialmente de forma muitíssimo rápida. No gráfico acima a linha verde mostra uma curva que atende essa condição, devendo apresentar crescimento explosivo até alcançar seu limite N. Se pelo contrário a curva de demanda ficar abaixo da diagonal o mercado não só não é explosivo como também é inviável, caso das curvas vermelhas do gráfico acima.

Observe a analogia entre a explosão do mercado de fax e a explosão de uma bomba nuclear. Em ambos os casos temos processos de realimentação positiva sem limite exceto o esgotamento do mercado ou do material atômico. Em ambos os casos temos velocidades limitadas apenas pela inércia de um ciclo de multiplicação, seja a velocidade de romper um átomo de urânio na explosão nuclear, seja a velocidade de fabricação, informação dos consumidores e venda, no caso do desenvolvimento do mercado de fax.

Como detectar externalidades de rede

Claro que o mercado de equipamentos de fax não é especial. Muito pelo contrário. Externalidades de rede são características de uma classe muito grande de mercados. Como identificar os mercados em que essa externalidade é forte? Há um teste simples. Pergunte a si mesmo, se surgisse um produto novo, intrinsicamente melhor que o dominante hoje, ele te atrairia mesmo que quase ninguém o usasse ? Se a resposta for um sonoro não você deve estar diante de um mercado com externalidade de rede.

Mercados com externalidade de rede tendem a ter apenas um provedor ou formato dominando — essa é a situação de equilíbrio estável. Pois se o produto vendido tem valor proporcional ao tamanho da base instalada, ou já vendida, então o produto com maior participação de mercado vale mais e tenderá a vender mais. O de menor participação tenderá a vender menos. Logo o mercado migrará para 100% de participação do fornecedor dominante, independente se o fornecedor dominante tinha um produto melhor, igual ou mesmo pior do que aquele que tinha menor participação.

Veja o caso dos programas de computador que no dia-a-dia supõem troca constante de arquivos com outros usuários. Cada usuário que manda um arquivo para outro prefere contar que seu destinatário conseguirá abrir e manipular o arquivo sem problemas. Por isso preferirá usar o mesmo programa que a maior parte de seus destinatários usa. Mas se todos pensam assim, logo todos usarão o mesmo programa. Daí a hegemonia do Excel, e a morte dos razoavelmente competetentes Lotus 123 e Quattro Pro. Daí a hegemonia do MS Word, e a morte do WordPerfect e Lotus Word Pro. Quem acompanhou esse processo se lembra que Word e Excel se destacavam por facilitar a importação dos arquivos dos concorrentes, mas dificultar ou pelo menos não disciplinar a exportação para formatos abertos ou de concorrentes. Isso é usar a externalidade de rede estrategicamente, criando assimetrias: sua base valoriza o meu produto mas minha base não valoriza o seu. Parece com os cassinos de Las Vegas, que possuem esteiras rolantes para dentro mas não para fora. Truques como esse são úteis enquanto o mercado ainda está com alguma disputa.

O iPod da Apple tem externalidade, mas é com produtos complementares. Um tipo mais indireto de externalidade: como existem muitos iPods, muitos acessórios compatíveis são feitos para ele. Como existem muitos acessórios, cada iPod fica mais valioso, mesmo para quem não comprou nenhum acessório, pois opção é valor. E com isso mais iPods são vendidos, realimentando o ciclo. “Efeito Tostines”, lembrarão alguns. Não é uma externalidade de rede tão forte quanto, digamos, a do sistema operacional Windows, mas ainda assim é potente.

Uma externalidade de rede histórica e interessante é o teclado QWERTY. Olhe para o seu teclado, a primeira fila no alto a esquerda começa com as letras q, w, e, r, t, y. Porquê ? Para facilitar a digitação, alguém imaginaria. E erraria. Quando essa distribuição de letras foi criada ela foi feita para uso com máquinas de escrever mecânicas. Essas máquinas, se tecladas muito rapidamente, “enganchavam”, travavam. Por isso decidiram espalhar as letras de forma a servir ao mecanismo, não ao digitador. Quando vieram as máquinas elétricas não precisavam mais manter o padrão, mas como todas as datilógrafas do mundo já estavam treinadas no teclado QWERTY ele permaneceu. A secretária que mudava de emprego, ou de máquina, não precisava ser retreinada. Também quando surgiram os computadores esse teclado se manteve. Aqui a externalidade de rede é indireta, como no caso dos iPods. Porque havia muitos teclados QWERTY, havia mais valor em uma secretária treinada neles. E porque havia muitas secretárias treinadas em QWERTY, mais valor nesse teclado. Mais QWERTY vendidos, mais demanda por QWERTY. Sem chance para as alternativas melhores.

Casos assim originam um termo que estava na moda na análise da nova economia e suas tecnologias: path dependency, ou dependência do caminho. As coisas são do jeito que são porque vieram pelo caminho que vieram. Se a bola de neve começou a rolar, dizem, a conseqüência é a história.


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