Inábil e Inconsciente: A Dificuldade de Reconhecer a Própria Incompetência

Um artigo do Journal of Personality and Social Psychology, da Associação Americana de Psicologia, discute a diferença entre a auto-percepção e a realidade. Em 1995, diz o artigo, McArthur Wheeler entrou em dois bancos de Pittsburgh, na Pennsylvania, e os assaltou em plena luz do dia, sem nenhum disfarce visível. Ele foi preso naquela noite mesmo, menos de uma hora depois das gravações das câmeras de segurança serem mostradas no noticiário da TV. Quando a polícia mostrou a ele as fitas, o Sr. Wheeler ficou pasmo. “Mas eu coloquei o suco,” ele balbuciava, incrédulo. Aparentemente o Sr. Wheeler acreditava que esfregar o próprio rosto com suco de limão o fazia invisível para câmeras de videotape.

Com essa introdução os autores apresentam o ponto principal de seu artigo: “Nós argumentamos que quando as pessoas são incompetentes nas estratégias que adotam para atingir o sucesso e a satisfação elas sofrem duplamente: Não apenas elas têm conclusões erradas e fazem escolhas infelizes, mas sua incompetência também as rouba da capacidade de entender isso. Como o Sr. Wheeler, elas ficam com a impressão errônea de que que estão indo perfeitamente bem. Como Charles Darwin (1871) notou, a mais de um século atrás, ‘a ignorância traz auto-confiança com mais freqüência do que o conhecimento traz’.”

Esse artigo tem muito a ver com o livro do economista e filósofo Eduardo Gianetti da Fonseca, “O Auto-Engano”, publicado aqui no Brasil pela Companhia das Letras. O fedor quando muito forte é insuportável ao ser humano, que dele se afasta. Porém quando a origem do fedor que um sente é ele mesmo, a sobrevivência força uma transformação do cheiro insuportável em imperceptível ou, até, no cheiro correto e desejável. A pessoa se engana para poder viver consigo mesma — diz o livro.

O artigo dos psicólogos americanos coloca a questão de forma mais técnica: “As habilidades que formam a competência em um domínio particular são freqüentemente as mesmas necessárias para avaliar competência naquele domínio — competência própria ou dos outros. Por causa disso, indivíduos incompetentes não possuem o que psicólogos cognitivos chamam de metacognição, metamemória, metacompreensão ou habilidade de auto-monitoramento. Termos que se referem à habilidade de saber o quão bem se está desempenhando, o quão preciso é o seu próprio julgamento, e quando se está provavelmente cometendo erros.”

São 14 páginas de leitura interessante que o poço da web oferece para os confortáveis com a língua inglesa: “Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments”. Os autores são Justin Kruger e David Dunning, da Universidade de Cornell.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s