Manual del perfecto idiota latinoamericano

Roberto Campos escreveu este texto dez anos atrás. Foi publicado em 25/8/96. Nele o economista apresenta sua opinião de leitor de um livro então recém-publicado. O provocante título era “Manual del perfecto idiota latinoamericano” — e foi menos lido do que deveria. Na falta do Manual, meu caro latinoamericano, sirva-se da inteligência deste artigo…

 Manual del perfecto idiota latinoamericano

“Só há uma coisa pior do que ser explorado pelo imperialismo; é não ser por ele explorado” – Joan Robinson 

O título acima é de um “best seller” em Buenos Aires, para o qual Afonso Romano foi o primeiro a nos chamar a atenção. O “Manual” tem um prefácio do notável escritor Mário Vargas Llosa e foi escrito, a três mãos, com grande verve, boa pesquisa histórica e agudo senso econômico, por Plínio Apuleyo Mendonza (colombiano), Alberto Vargas Llosa (peruano) e Carlos Alberto Montaner. Este último, um democrata belicoso que apoiou Fidel Castro na derrubada de Batista e depois teve de enfrentar uma nova ditadura, a do próprio Fidel. Todos os três foram simpatizantes do marxismo, que nos anos 50 e 70 grassou na América Latina como uma espécie de gonorréia juvenil, até que a queda do Muro de Berlim agisse como penicilina ideológica.

O “Manual” é uma devastadora catilinária contra a mitologia latino-americana dos nacional-populistas e esquerdistas. Aqueles, afeiçoados à arte de distribuir e incompetentes na arte de produzir, infligem, através do populismo clientelesco, patrióticos infortúnios à população. Estes, contumazes idólatras do fracasso, recusam-se a admitir que as riquezas são criadas pela diligência dos indivíduos e não pela clarividência do Estado; que resultam da disposição de poupar e correr riscos de investidores nacionais e estrangeiros; que os monopólios estatais são fontes de abusos e ineficiência; que o melhor instrumento de controle social do mercado é a concorrência e não o altruísmo do burocrata; e que a intervenção estatal gera privilégios e corrupção.

São parte da idiotice latino-americana a falsa causalidade e a errônea identificação de inimigos. Exemplo da falsa causalidade é a seguinte tirada slogânica: “El desarollo de los paises pobres es el producto histórico del enriquecimento de otros. Em última instancia, nuestra pobreza se debe a la explotación de que somos víctimas por parte de los paises ricos del planeta”. Para essa cultura da inveja, a economia internacional é um jogo de soma zero, no qual inexiste a noção de vantagem mútua.

A errônea identificação de inimigos consiste em atribuir-se a pobreza endêmica e os absurdos desníveis de renda na América Latina ao capitalismo e ao liberalismo, animais quase inexistentes em nossa paisagem e que apenas agora ensaiam uma tímida presença. Os reais inimigos são outros: o mercantilismo patrimonialista, o estatismo e o nacionalismo. 

Estes é que explicam os monopólios estatais dispendiosos e ineficientes; a inflação crônica, o empobrecimento e a extorsão imposta a poupadores e a usuários, vítimas de altas tarifas, impostos complexos e confiscos periódicos. Cabe aliás notar que o nacionalismo nem sequer é produto nativo; é um transplante europeu. O produto nativo deste subcontinente é o caudilhismo político.

O “Manual” dá explicações interessantes sobre o antiamericanismo, que é capítulo obrigatório na Bíblia do idiota latino-americano. Há um componente “cultural”, ancorado na tradição hispano-católica; um “econômico”, consequência de uma visão nacionalista e marxista das relações econômico-financeiras entre o “império” e as “colônias”; um “histórico”, derivado dos conflitos armados entre Washington e alguns vizinhos do sul; e um “psicológico”, produto malsão dessa mistura de ódio e admiração, que nos provoca a grande nação do Norte. O antiamericanismo é uma espécie de “mau hálito” do terceiro-mundismo, que até recentemente poluía nossa política externa.

É impiedosa a demolição feita, pelos autores, de mitos revolucionários e de heróis populistas: Pancho Villa, Fidel Castro, Allende, Peron, Che Guevara, Velasco Alvarado. Colocados sob a lupa implacável da análise de resultados, se tornam figuras menores, diferenciadas apenas pelo seu grau de masoquismo imaginário ou pelo infortúnio que impuseram a seus países. “Somos pobres: la culpa es de ellos” é o refrão de todas essas figuras, cuja sensatez econômica é inversamente proporcional à capacidade de suas glândulas salivares…

Enfocando principalmente o componente hispânico, o “Manual” subestima a contribuição brasileira para a idiotice do subcontinente. Nada diz sobre a teoria de Lula, segundo quem a inflação seria devida não à expansão monetária do governo e sim à “ganância do empresários”. Ou sobre as arengas de Brizola, segundo o qual nosso subdesenvolvimento resulta das “perdas internacionais” que nos impõem as multinacionais, exploradoras de nossas riquezas. Ou sobre a paranóia antropológica de Darcy Ribeiro. Este declara que os Estados Unidos, talvez a sociedade mais inovadora e criativa da era moderna, são um mero transplante da Europa, que “não apresenta novidade nenhuma neste mundo”. O Brasil, por contraste, é a Nova Roma, “tardia e tropical”, na qual a mestiçagem se torna um misterioso detonador de criatividade! A verdade, naturalmente, é outra. Boa parte de nosso subdesenvolvimento se explica em termos culturais. Ao contrário dos anglo-saxões, que prezam a racionalidade e a competição, nossos componentes culturais são a cultura ibérica do privilégio, a cultura indígena da indolência e a cultura negra da magia…

Os dois brasileiros que merecem mais espaço no “Manual” são Frei Betto e Fernando Henrique Cardoso. O primeiro, por causa de seu apostolado da teologia da libertação. Este porque um de seus livros, intitulado “Dependência y desarrollo en America Latina”, se tornou um dos “diez libros que conmovieron al idiota latinoamericano”.

A teologia da libertação é uma espécie de coquetel de frutas retirado do “refrigerador teológico” para livrar os pobres de inimigos satânicos. Mistura-se, diz o “Manual”, uma onça de Hegel – a idéia da consciência como fator de liberdade -, outra de Freud – o comportamento humano condicionado pelo inconsciente que reprime nossa psique – e finalmente uma onça de Marcuse – a repressão social de coletividade inconsciente -, que deve ser resgatada ao lhe ser devolvida a consciência social. Administrado esse coquetel, livra-se o povo da repressão que o impede de perceber que está sendo explorado. 

O socialismo seria uma espécie de trampolim para o céu e o capitalismo, presumivelmente, um tobogã para a terra. Para Frei Betto, o capitalismo e a economia de mercado estão na raiz de nossa miséria e da injustiça. Só que essas instituições nunca vicejaram na América Latina, onde imperam o estatismo e o patrimonialismo. Frei Betto é capaz de dizer, com unção evangélica, megabobagens como as seguintes: “Cuba é o único país onde a palavra dignidade tem sentido”. Ou então: “Em nossos países se nasce para morrer. Em Cuba, não”!

O livro de FHC, publicado em 1969 (com 24 reedições), justifica plenamente sua recomendação de que esqueçamos o que escreveu. Os países se dividiriam entre “centro” e “periferia”. Estes, subdesenvolvidos, cumpririam na economia mundial as funções que lhes fossem determinadas pelos países do Centro. Suas decisões de produção e consumo se tomariam em função da dinâmica e dos interesses das economias desenvolvidas. Nascida do propósito de encontrar uma explicação para os fracassos da doutrina cepalina de substituição de importações (que não lograra diminuir a brecha que separava os Estados Unidos e o Canadá de seus vizinhos do Sul), a “teoria da dependência” acabou fazendo uma confusão homérica entre estágios temporários de subdesenvolvimento e fatalidades sociológicas. 

Com o salto espetacular dos tigres asiáticos na última década, que tornou os “periféricos” Hong Kong e Cingapura mais ricos que a metrópole inglesa, e com a sofisticação de Taiwan e Coréia em indústrias de ponta, a teoria da dependência caiu no ridículo. FHC depois se tornou um político de êxito, aderiu à economia de mercado e à abertura internacional, e é hoje acusado de “neoliberal”. (Injustamente, aliás, pois de vez em quando tem recaídas dirigistas, imiscuindo-se em mensalidades escolares, aluguéis e multas contratuais). Superou sua fase de subdesenvolvimento mental, o que prova tratar-se de doença grave e contagiosa, porém não incurável.

A inflação, diz Milton Friedman, é sempre e exclusivamente um fenômeno monetário. O subdesenvolvimento, por sua vez, não resulta de espoliação internacional ou da falta de recursos naturais. É sempre um fenômeno “cultural”: um misto de idiotice e “mau-caratismo”. Infelizmente, ambas as coisas são abundantes neste subcontinente, que Lord Palmerston outrora chamou de “continente desperdiçado”…

Roberto Campos, 78, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de “A Lanterna na Popa” (Ed. Topbooks, 1994).

Anúncios

2 respostas em “Manual del perfecto idiota latinoamericano

    • Colega kafkaniano, acho que seu insulto chegou atrasado — o autor deste artigo, Roberto Campos, faleceu dez anos atrás, em 2001, aos 84 anos de idade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s