A etimologia do bigode

Etimologia é o estudo da origem histórica das palavras. A palavra etimologia em si vem das palavras gregas etymos, que significa verdadeiro, e logos, que significa palavra. Ou seja etymos+logos, etimologia, é a verdadeira palavra. No começo o termo se referia ao significado verdadeiro da palavra, atualmente se refere à raiz verdadeira da palavra. A etimologia é uma forma fascinante de enxergar o passado: uma autêntica viagem na máquina do tempo. Cada inocente palavra pode revelar um mundo completo, absolutamente concretizado no vocábulo e ao mesmo tempo secreto, escondido. Por exemplo, você já pensou alguma vez sobre a origem da palavra “bigode”?

A raiz do bigode e os Góticos
De acordo com o historiador austríaco Egon Friedell (1878-1938), a palavra “bigoth” tem a mesma raiz que a palavra “visigoth”, termo usado para designar o povo visigodo. É um fenômeno comum na pronúncia latina vulgar a transformação do som inicial de “v” no som de “b”. Quem já estudou espanhol ou ouviu o português pronunciado em Portugal já percebeu o fenômeno: vinho se pronuncia como “bino” ou “binho”, independente de como se escreve. Pois bem, a trajetória etimológica provável foi “visigoth” -> “bigoth” -> “bigode”. Tal teoria é suportada pelo fato que em línguas latinas medievais se usa o termo “bigoth” para se referir aos visigodos.

A palavra bigode passou a ser utilizada popularmente na Península Ibérica para designar a pelagem que os homens têm sobre os lábios porque, obviamente, os Visigodos tinham o hábito de usar tal pelagem! Na imagem abaixo veja o Rei Theodoric (Teodoro), de origem Gótica.

Rei Theodoric, Gótico

Interessantemente, a mesma palavra existe na língua inglesa com outro significado totalmente diferente, mas a mesma origem. “Bigot” em inglês significa alguém intolerante, preconceituoso, que não consegue conviver com opiniões diferentes da sua própria. “Bigotry” significa o preconceito ou a manifestação de intolerância. Também há indicações históricas de que assim eram os Visigodos, seja como bárbaros, seja depois de cristianizados. (vide a fonte)

Mas quem, katzo, eram os Visigodos? Os Visigodos eram uma tribo guerreira nômade que saqueou como tantas outras o moribundo Império Romano. Visigodo, ou visigoth, significava “Godo do Oeste”. Ostrogodo, outra tribo bárbara do mesmo período, significava “Godo do Leste”. Se você acha estranha a palavra Ostrogodo então saiba que Áustria, em alemão atual, se diz “Österreich”: Reino do Leste. Mas divergimos!

A origem histórica dos Godos (ou Góticos) é a Escandinávia, mais precisamente onde hoje é a Suécia. Já havia muitos séculos, talvez desde 300 a.C, que os Visigodos e Ostrogodos haviam abandonado suas terras ancestrais para conquistar o entorno do Mar Báltico, descer os rios que levavam ao coração do território que é hoje a Rússia, e chegar até as margens do Mar Negro. Veja abaixo.

Presença dos Góticos na época do Império Romano

Diz a história que os Visigodos e Ostrogodos se moveram para Oeste para escapar de outro povo bárbaro guerreiro, vindo da Ásia: os Hunos. Os Godos invadiram o enfraquecido Império Romano e saquearam várias vezes Roma e a península Itálica num período que durou décadas. Ao fim se estabeleceram como reis da Península Ibérica (os Visigodos) e da Península Itálica (os Ostrogodos), subjugando militarmente os ex-cidadões de Roma. Se tornaram a nobreza de vários reinos, portanto, no começo da era Medieval. Pouco tempo mais tarde se converteram ao Cristianismo e com isso se aproximaram das populações sobre as quais reinavam.

Trajetória dos Visigodos
Acima há um diagrama com a trajetória de saques e conquistas dos Visigodos, e o ano aproximado em que lá estiveram. Veja que eles partiram da região da Ucrânia por volta de 376 d.C. e chegaram à região da França e da Espanha 40 anos mais tarde.

Os Visigodos deixaram na região da Espanha influência étnica (louros de olhos azuis espalhados no meio dos morenos) e lingüística via vários nomes portugueses/espanhóis de origem germânica. Nomes como Rodrigo, Ricardo, Frederico e Teodoro originalmente eram Roderik, Reykhardt, Friederik e Theodoric. Todos compartilham a raiz nórdica “Reyk”, que significa Rei, e querem dizer respectivamente “Rei Famoso”, “Rei Forte”, “Rei da Paz” e “Rei do Povo”.

O reinado dos Godos na Espanha durou cerca de 300 anos (400 d.C a 711 d.C). Terminou com a invasão dos Mouros, que só seriam expulsos cerca de 700 anos mais tarde, na Reconquista .

A origem dos sobrenomes Lancaster e Castro
Veja abaixo as fotos do ator americano Burt Lancaster e do ditador cubano Fidel Castro. Um tem um sobrenome de origem inglesa, o outro um sobrenome de origem espanhola. Quem diria que a raiz etimológica dos dois sobrenomes é uma só?

Burt Lancaster e Fidel Castro

Dois mil anos atrás os habitantes originais de Portugal, Espanha e Inglaterra foram subjugados pelo mesmo povo. Os conquistadores Romanos com suas legiões eram os mais organizados soldados da antiguidade. Sua engenharia militar também era avançadíssima, e foi decisiva em muitos casos, como quando Júlio César derrotou os Gauleses, e quando construiu em dez dias uma ponte de madeira para um exército cruzar o Rio Reno.

Os legionários usavam as lanças na guerra, e a pá no acampamento. Seus acampamentos militares podiam ser tendas de pano com trincheiras e paliçadas no entorno. Mas também podiam ser muito mais do que isso, com grandes muros de pedras, torres e construções mais permanentes, como aquelas feitas junto da Muralha de Adriano, na Inglaterra. A qualquer um desses estabelecimentos militares reforçados defensivamente os Romanos davam o nome de castrum (no singular) ou castra (no plural). Daí veio o sobrenome, comum na Espanha e em Portugal, assim como na América Latina: Castro. Por aí também veio a palavra castelo em português e espanhol (de castelum, diminutivo de castrum).

Mas o que o Burt Lancaster tem a ver com isso? Acontece que quando os Romanos invadiram a Inglaterra (por volta do ano 50 a.C.) os povos de lá não haviam constituído aglomerações urbanas importantes: comparadas aos Romanos os Bretões eram pequenas tribos bárbaras e incivilizadas. Com a conquista, em torno das fortificações romanas (castra) surgiram algumas das primeiras cidades inglesas. Os nomes foram se metamorfoseando com o passar do tempo mas mantiveram, em muitos casos, a referência ao castrum ou aos castra originais.

Lancaster significava originalmente os acampamentos de Lan, ou o Lan Castra. A palavra castra (ou seu singular castrum) se converteu nos sufixos ingleses -caster, -chester e -cester. Quão prevalente é isso? Veja o mapa atual da Inglaterra abaixo.

Castra na Inglaterra

Incidentalmente, alguém vai se lembrar do verbo “castrar” em português, e imaginar se há alguma relação. Castrar significa cortar. E há uma relação mesmo: em sua raiz “castrum” era um corte de terra (um terreno) separado para fins militares.

Mais etimologia
Buscar a origem de uma palavra é como puxar um fio solto numa blusa de lã: se você começa a puxar, puxar, pode vir tudo. Uma palavra leva a outra, e vai-se mergulhando no passado, nas histórias mais pitorescas. É possível que o leitor deste artigo tenha percebido que ao falar dos Romanos e dos Visigodos destrinchei a etimologia de meu próprio nome: Ricardo Castro. Começar com seu nome (ou uma palavra inocente, como bigode) pode levar a uma grande aventura.

O ideal é que tivéssemos em português um recurso tão prodigioso quanto The Online Etymology Dictionary (dicionário etimológico em inglês). Mas aos que se interessaram e querem proseguir sem inglês recomendo a etimologia dos nomes de países do mundo, além da etimologia dos estados e das capitais do Brasil.


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11 respostas em “A etimologia do bigode

  1. gostamos muito,porque com vocês aprendemos mais e tiramos nossas dúvidas!!! obrigado!!!beijos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Sr. Ricardo Castro,
    Seu artigo é muito interessante. Através dele consegui sanar grande dúvida a respeito do interessante bigode. Ouvira dizer que tal palavra nos foi legada dos espanhóis, os quais, ao conviver com povos germânicos, observaram que muito se pronunciava “bigot”, que significaria “por Deus”, e que tais germanicos utilizavam opulentos bigodes. Assim, os espanhóis se referiam àqueles como “bigot”. Mas tal explicação carece de verossimilhança, a do Sr. é que ganhou minha confiança. Parabéns.
    Eu gostaria de saber qual é a sua opinião a respeito do “Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa”, de autoria do Prof. Dr. Francisco da Silveira Bueno. Eu gosto dele, mas não encontrei a palavra “arbalesta”. Outra pergunta: qual é a etimologia da palavra “ariano”?
    Grato pela atenção.
    Desejo felicidades!

  3. Fernando, agradeço o comentário.

    Na verdade não tive acesso a essa coleção do Prof. Dr. Francisco da Silveira Bueno. Costumo fazer minhas investigações online e me apoiando um pouco nas minhas leituras de história (como amador).

    De toda forma o Dicionário Etimológico da Língua Inglesa aponta que a origem da palavra “ariano” é um religioso cristão chamado Arius, que pregou no mediterrâneo oriental por volta do Século IV depois de Cristo. Arius foi um de muitos cristãos da época que tinham visões teológicas distintas do que hoje é o dogma padrão. Ele foi influente e os que seguiam sua linha de pensamento ficaram conhecidos como Arianos. O interessante é que, como vc sabe, mais recentemente o termo tomou uma conotação mais étnica do que teológica, como qualquer filme sobre a segunda guerra mostra, na oposição ariano vs semita. Esse remapeamento gostaria de investigar melhor.

    Arbalesta é uma corruptela medieval (espanhol/português) do termo do latim antigo “arcuballista”, segundo este site, que mostra uma foto da arma. “Arcuballista” é uma palavra formada pela junção dos termos “arco” e “ballista”. O primeiro termo, o arco, é a artilharia pessoal clássica. O segundo, balista, uma máquina de disparar grandes projéteis contra fortificações (como a catapulta mas com outra tecnologia). Arbalesta, ou arcuballista é, portanto, o arco-balista, a balista portátil, individual. Em inglês a mesma arma ficou conhecida como “crossbow”. Sua vantagem sobre o arco tradicional é que os projéteis saem com tal força, e podem ser de tal peso, que perfuram as armaduras dos cavaleiros medievais.

    A pesquisa feita foi rápida, posso ter cometido algum erro — mas volto a checar mais tarde.

  4. Quero parabenizar a sua iniciativa, pois é muito interessante estudar o universo linguístico; eu, particularmente, sou um estudante de Letras muito fascinado pelo caráter histórico da linguagem; são espaços como esses que merecem divulgação por repassar saberes por meio de uma verdaderia viagem pela História… Parabéns!

  5. Andava à procura de elementos léxicos visigodos para as minhas aulas de iniciação à evolução da língua, no 9o ano do ensino básico. Foi ótimo ter encontrado este seu texto!

  6. Ricardo Castro, gostei muito do que li aqui. Também sou ligado na etimologia e encontro as mesmas dificuldades referidas. Mas quando a gente gosta do assunto se apela pra criatividade e se vai em frente.
    Foi muito bom encontrar um cara como você.
    Um abração.

  7. Também sou seriamente curioso a respeito da etimologia de qualquer palavra. Não temos em português obras encadernadas ou online para responder-nos o questionamento? Cursei letras portugês/inglês; acho, portanto, bastante natural e saudável culturalmente que se queiram procurar palavras (em qualquer língua), compreendê-las a partir de sua etimologia. Gosto disso, gosto de filologia! Grande abraço. Tudo de bom para ti é o que desejo.

  8. Maravilhosa sua pesquisa Ricardo. Sempre tive a intuição de que estes sobrenomes se relacionavam. Sou da família Castro que migrou do sul da Bahia para o estado de São Paulo em meados dos anos 30. Acredito que são descendentes do major Silva Castro, avô paterno do poeta Castro Alves. pois este herói baiano era da mesma região de onde vieram meus avós…

  9. Maravilhoso. Esse percurso da história, o texto leve que me fez desejar ter mais e mais. cada palavra é um universo de significados! Agradeço.

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