Depois que se sai da escola percebe-se que no mundo real é mais importante ser capaz de elaborar boas perguntas do que respondê-las. Encontrei em um site de perguntas e respostas uma boa pergunta: “As vantagens evolutivas da reprodução sexuada (aumento da variabilidade genética) não poderiam ser obtidas de modo mais simples com hermafroditas? Em cada encontro sexual, os 2 indivíduos poderiam fertilizar e ser fertilizados simultaneamente, o que me parece mais “econômico”… por que a natureza não adotou essa solução?”
Quando se questiona o que é muito básico, o que é tomado por certo e óbvio, tem-se a oportunidade, muitas vezes, de aprender algo profundo. A questão de por qual razão existem dois tipos de indivíduos, os machos e as fêmeas, em quase todas as espécies sexuadas é uma dessas questões interessantes. Naquele site, sob um pseudônimo, respondi a essa pergunta, e copio aqui a resposta, expandindo um pouco sobre as implicações que ela traz.
Porquê, nos seres com reprodução sexuada, existem 2 sexos diferentes?
A forma de resolver a charada é com a seguinte sacada: a evolução seleciona indivíduos eficientes, e não espécies eficientes. Por mais que para uma espécie fosse mais simples/eficiente a reprodução hermafrodita (como a pergunta indica), para um indivíduo da espécie poderia muito bem haver ganho em não ser hermafrodita, ou seja, poderia haver benefício em especializar-se em uma estratégia “macho”, ou uma estratégia “fêmea” de reprodução.
Machos e fêmeas de uma mesma espécie são indivíduos especializados em estratégias reprodutivas diferentes. De forma geral (e isto vale para muitas espécies) fêmeas investem mais (óvulo / ovo / gestação / amamentação, etc) no sucesso da prole: ou seja, a estratégia de “Este descendente tem que dar certo”. Machos investem pouco em cada fecundação, tentam a estratégia de “Um dos muitos descendentes deve dar certo”. O interessante é o seguinte, a existência de indivíduos buscando uma estratégia beneficia o surgimento da estratégia complementar, de tal forma que em praticamente todas as espécies sexuadas a proporção de machos/fêmeas é próxima de 50/50.
É mais ou menos assim: se todos são hermafroditas, suponha que surja por mutação um que resolve ser um “hermafrodita apressado” (“HA”). “HA” significa que ele só fertiliza outros, sem deixar/esperar ser fertilizado. Pode ser que esse HA consiga deixar mais prole (fecundando um grande numero de hermafroditas normais) e assim virar um grupo numeroso na proxima geração (seus descendentes herdam geneticamente o comportamento HA). Mas há um limite, se, por exemplo, 90% da população for de “HA” e 10% de hermafroditas normais, então 100% dos hermafroditas normais deixarão descendentes, e só 1 em cada 9 dos HA deixará descendente. Na geração seguinte haverão menos HA, e mais HN. O ponto de equilibrio é 50% HA, 50% HN. Nesse ponto, o melhor que um HA pode fazer é fertilizar mais HN que os outros HA/HN, e o melhor que um HN poderá fazer é cuidar para que, se fertilizado, sua prole sobreviva (pois não conseguiria competir com os HA em termos de eficiencia em fertilizar outros HN, e portanto só conseguiria ser fertilizado, não fertilizar). Pronto, como vc vê, está apontando o surgimento do sexo masculino (os HA) e o sexo feminino (os HN, que com o tempo perdem a função de fertilizar porquê não conseguem competir com os HA).
Sinceramente não tenho idéia se consegui explicar direito, mas acho que posso apontar uma fonte para ler sobre o tema: Um livro escrito pelo recentemente falecido biólogo evolucionário Stephen Jay Gould, publicado em português com o título “O Polegar do Panda”. O capítulo 6 desse livro explica claramente o que tentei explicar acima. Recomendo fortemente como leitura para quem possa ter interesse em biologia. Está disponível na Saraiva online (veja este link).
A Seleção das Espécies, A Luta de Classes
Stephen Jay Gould praticamente só escreveu sobre biologia, era um biólogo, afinal de contas. Ele explicou a razão da proporção entre os sexos ser praticamente sempre 50/50 — lambaris machos e fêmeas estão em 1 para 1, assim como canários, cavalos, cachorros, escorpiões, macacos e moluscos. Sabe-se que um touro pode cobrir vinte vacas, portanto é um aparente paradoxo a natureza não refletir isso.
A armadilha no caminho de resolver o paradoxo, demonstrou Gould, é imaginar que existe na natureza algo como “sobrevivência da espécie”, ou “interesse da espécie”. Não existe. Uma espécie interessada em sobreviver de forma eficiente, se reproduzir de forma ótima, teria mais fêmeas do que machos. Mas tal espécie não existe. Pois o interesse dos indivíduos é o que prevalece, e as características comuns aos membros de uma dada espécie são apenas o resultado das preferências, interesses e estratégias dos indivíduos, cada um deles, que compõem essa espécie.
Neste ponto sugere-se uma ponte entre disciplinas. Da mesma forma que espécies não são agentes de seu próprio destino, países também não são. O Brasil não existe, como agente histórico — mas os brasileiros existem. O Estados Unidos não tem interesses, mas indivíduos dentro dos Estados Unidos têm. Existe Cuba ? Fidel é Cuba, ou o cubano que Fidel mandou para a prisão é Cuba ? Indivíduos têm interesses de todos os tipos, diferentes dos de outros indivíduos no mesmo país.
O interesse, a vontade, a ação histórica é, sempre, individual. A famosa “luta de classes” de Marx precisa do conceito de “classes” para fazer sentido — mas o que são classes como agentes históricos ? Classes são abstrações às quais se atribuem características individuais, humanas, que propriamente não se aplicam a conjuntos humanos acima do nível individual. “A Burguesia fede, a Burguesia quer ficar rica” — cantou Cazuza. Mas o significado de “querer” quando aplicado ao sujeito burguesia é absolutamente impróprio. Se quem quer ficar rico é Burguês, então alguns brasileiros de todas as classes e níveis sociais são Burguesia. Se Burguesia é a classe média à qual Marx se referia, então novamente deveríamos concluir que todos da classe média querem a mesma coisa — o que é estúpido, se não é insultante. Cazuza na mesma música se desculpava dizendo “Eu sou burguês, mas eu sou artista / Estou do lado do povo, do povo”, cantava, “Sou rico mas não sou mesquinho”. No fundo ele sabia que não existe um querer da burguesia.
Quantos sabem que Marx existiu por conta de Engels, que o sustentava financeiramente, que lhe dava dinheiro para viver, que pagou pela impressão de seus livros ? Engels era filho de um industrial, sujeito riquíssimo, um membro da elite que Marx descrevia como a antagonista de sua teoria. E no entanto como indivíduo ignorou as simplificações Marxistas e, como Cazuza, revelou que o indivíduo é o agente. Apenas não conseguiu foi reconhecer a inconsistência entre sua prática e a teoria que estava nascendo.
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Olá, gostaria de questionar o que foi dito a respeito de S.J. Gould, na frase: “Uma espécie interessada em sobreviver de forma eficiente, se reproduzir de forma ótima, teria mais fêmeas do que machos. Mas tal espécie não existe” Será que não existe??? o próprio Gould cita em seu livro O Polegar do Panda (capitulo 6) o trabalho de Hamilton, explanando o reprodução de uma sp de acaro!!!
Comentário por Valquiria — 14/9/2007 @ 4:32 pm |
Valquiria, você tem toda razão. Gould explicou uma mecânica do equilíbrio dos sexos que é válida, mas que depende de um conjunto de condições. Essas condições são verdadeiras para praticamente todas as espécies sexuadas. Mas ele apontou (muito bem, eu diria) uma exceção para testar, e provar, a regra de sua mecânica. Especificamente descreveu uma espécie de ácaro em que a cópula se dá dentro do corpo da mãe, exclusivamente entre irmãs e irmão que jamais sairam do invólucro do ventre materno. O macho fertiliza as irmãs e morre imediatamente. Como não precisa competir com outros machos pelo acesso às fêmeas (pois sua mãe lhe concede exclusividade no acesso sexual às suas irmãs) a força seletiva que causa o equilibrio na mecânica geral não se aplica. E portanto a proporção entre machos e fêmeas é totalmente desequilibrada a favor das fêmeas (no caso do ácaro, um macho para seis a nove fêmeas). Fascinante, não ?
Comentário por Ricardo Castro — 15/9/2007 @ 10:33 am |
“Olá!
Bem, se foi citada uma sp. onde não há um equilibrio entre a quantidade de machos e fêmeas, já não se pode dizer que uma sp. com tal características não existe, afinal o ácaro esta aí… e depois… não conhecemos todas as especies que fazem parte da biodiversidade do planeta, logo devemos ser cautelosos em afirmar que não existe sp. com caracteristicas assim ou assadas, nunca sabemos quando poderemos encontrar um animal que apresente caracteristicas nunca vistas antes, como quando em meados de 1799 a ciencia via em frente aos seus olhos um Ornitorrinco.”
Comentário por Darcieli — 16/9/2007 @ 10:52 pm |
Oi Ricardo…
… concordo com o que disse, no entanto o macho da sp de ácaro sitada por Gould ,o Adactylidium, chega sim a nascer! Quem não nasce é o macho de uma outra espécie, também de ácaro: o Acarophenax tribolii (sitada no finalzinho do catítulo)
Comentário por Valquiria — 16/9/2007 @ 11:01 pm |
Valquiria,
Sobre os machos do Adactylidium Gould diz: “They emerge, react however a mite does to the glories of the outside world, and promptly die”. Ou seja, nascem larvas, devoram a mãe por dentro, viram adultos, copulam, furam a casca do corpo da mãe e “promptly” (imediatamente) morrem. Acho que tem uma questão aqui sobre o significado da palavra “nascer” — para mim as larvas/os ácaros, ainda que estivessem restritas/os ao cadáver da mamãe ácaro, já tinham nascido. O importante, de toda forma, para esta discussão é se o macho depois de copular com suas irmãs consegue encontrar outra fêmea da espécie — a resposta é claramente não.
Darcieli,
Em outras partes do texto fui menos incisivo no “tal espécie não existe” — mas deixei desta forma aí como desafio (do tipo “me prove errado!”) Valquiria matou a questão, e está, claro, absolutamente certa. Exceto entre os leitores de Gould, e em faculdades de biologia, haveria grande dificuldade de apontar uma espécie na lista das exceções. E lembrando o velho ditado, são as exceções que provam a regra!
Agradeço sua participação!
Comentário por Ricardo Castro — 21/9/2007 @ 9:55 pm |
gos tei muito de site e muito bom para desevolver as nossa mente e o celebo ficamos mais inteligente
Comentário por jaqueline — 3/9/2009 @ 5:04 pm |
por que a juliana e macho e eu so femia kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkrsrsrsrsrsrsrsrsrsr
Comentário por jessica — 10/11/2009 @ 11:37 am |
por que a jéssica rocha e macho e eu que sou femia
Comentário por juliana — 10/11/2009 @ 11:40 am |
Aparentemente a existência de machos e fêmeas foi resolvida numa etapa da exolução pelo próprio DNA, já que não havia um cérebro para pensá-la. Agora, se o DNA não tem um cérebro e neurônios para calcular isso, alguma coisa dentro dele, que a princípio nós desconhecemos o que seja, essa coisa calculou esse caminho evolutivo em praticamente todas as espécies do planeta – e o que é mais fascinante: em espécies diferentes, que aparentemente não tem nada a ver, insetos, peixes, repteis mamíferos, aves, todos tem macho e fêmea.
Como a natureza planejou isso, em TODAS AS ESPÉCIES? A não ser que exista algum tipo de inteligência que resolveu isso para perpetuar as espécies por algum interesse, é bem pouco provável que a natureza inconsciente resolvesse isso. Portanto deve existir algum tipo de inteligência não material ou não perceptível, alguma inteligência além da humana, talvez a nível de infinitamente pequeno ou até mesmo de átomo. Aí esbarramos na idéia de Deus, que talvez não esteja de todo errada. Pode não ser o Deus da igreja, pode não ser um Deus humano, pode não estar vinculado a nada que seja humano mas existe algo planejando este mundo. O seu objetivo nos escapa a compreensão.A exsitencia da diferenciação dos sexos nas espécies já é um programa dentro de outro programa que por sua vez deriva de algo que não é material, que já estava programado antes da existencia, e programado inteligentemente para obter resultados, principalmente a existência de espécies que se perpetuassem virtualmente eternamente. Foi uma coisa pensada, não por um Deus humano, mas por um princípio inteligente, e não apenas uma memória dos elétrons – essa coisa calculou, analisou e escolheu o melhor caminho para a evolução das espécies.
Comentário por Walter Ice — 27/2/2010 @ 12:26 am |