Como Queria que Você Estivesse Aqui

Qual sua música favorita ? A minha, faz muito tempo, é “Wish You Were Here”, do Pink Floyd. Ela tem uma bela melodia, com aquele dedilhar num violão acústico de doze cordas que parece sair de uma estação de rádio distante para se materializar ao lado do ouvinte. Mas não é a melodia que mais me atrai. “Wish You Were Here” é minha música favorita por causa de sua letra, que, já notei, é em geral ignorada e desperdiçada aqui nesta parte do mundo que fala português. Deixa eu mostrar para você.

Wish You Were Here, Pink Floyd

So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
blue skies from pain.

Can you tell a green field
from a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade
your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?

And did you exchange
a walk on part in the war
for a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here.
We’re just two lost souls swimming in a fish bowl,
year after year…
Running over the same old ground.
What have we found? The same old fears.
Wish you were here.

Então, você acha acha que consegue dizer o que é céu e o que é inferno? Diferenciar céu azul e dor? Você consegue dizer a diferença entre um campo de verde amplitude, por onde você pode correr e ser livre, e um frio trilho de aço, por onde você segue preso, sempre adiante? Você consegue distinguir um sorriso de um véu? Você acha que consegue reconhecer um sorriso verdadeiro?

Conseguiram fazer você trocar todos aqueles seus heróis, que você tinha quando era jovem, por sombras, por fantasmas, por imagens desbotadas e sem matéria de significância? E fizeram você trocar carvão em brasa, que arde, que queima, que brilha, por árvores, imóveis, frias, inertes? Ar quente por uma leve brisa fresca? O conforto frio, aquele conforto frio e duro daqueles que são fiéis a si mesmos, por uns trocados?

E você trocou um papel de figurante na guerra para ser protagonista em um cárcere? Preferiu ser chefe entre os escravos do que ser soldado comum entre os livres?

Como eu queria, como eu queria que você estivesse aqui comigo. Você e eu compartilhando do mesmo conforto duro daqueles que são verdadeiros consigo mesmos. Como eu queria que você estivesse aqui comigo, fazendo o que acredita, sendo fiel a quem você era. No fim, somos apenas duas almas perdidas, nadando em círculos em um aquário, ano após ano, percorrendo sempre o mesmo chão. No fim, o que nós encontramos? Os mesmos velhos medos que já tínhamos… queria que você estivesse aqui…

E é essa a música inteira, esta é toda a mensagem: seja verdadeiro consigo mesmo. Há um livro, muito bom de se ler quando se é adolescente, sobre essa mesma questão. Se chama “O Apanhador no Campo de Centeio” (The Catcher in the Rye), de J. D. Salinger. Ouvi falar desse livro pela primeira vez em uma entrevista com Washington Olivetto, o super-astro da publicidade, publicada na revista Playboy, muitos anos atrás. O repórter perguntou qual livro tinha tido mais influência sobre sua vida e sua carreira. Tinha sido esse.

No livro o personagem principal, Holden Caulfield, é um adolescente que estuda em internatos, e que frustra seu pai por estar sempre se metendo em problemas, muitas vezes sendo expulso, sem conseguir nenhum sucesso de nota. Mas o herói Caulfield tem uma qualidade excepcional, admirável: ele é verdadeiro, e faz sempre o que é certo, ou o que acredita ser certo, apesar de tudo, apesar da sociedade, apesar das expectativas de seu pai, apesar dos esnobes a sua volta. Sempre há um caminho mais fácil, um caminho confortável, e um caminho verdadeiro, fiel aos seus princípios, e Caulfield escolhe, consistentemente, o segundo. Todos o criticam, seu pai o critica, mas nós, como leitores do livro, e também sua irmã mais nova, personagem do livro, reconhecemos nele aquela virtude absolutamente rara e admirável — a honestidade de princípios.

Assim é que “wish you were here” não é uma música de amor. “This is not a love song“, como diriam os Sex Pistols. This is not a love song. Não é um amante romanticamente desejando que sua amada estivesse com ele quem canta. É Holden Caulfield, mais velho, mais confiante, mas ainda melancólico quanto à vida, quem canta. Ou talvez seja aquele jovem idealista que já fomos, a lembrança daquele jovem dentro de nós, que chama o adulto que nos tornamos a se reencontrar com ele.

P.S. Se você não conhece a música, veja o vídeo abaixo — talvez até reconheça.


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2 respostas em “Como Queria que Você Estivesse Aqui

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